O blog da Editora Cultura Cristã

Reforma31 – Dia 10 de 31

A BÍBLIA PODE ERRAR E AINDA SER PALAVRA DE DEUS?

É possível afirmar que a Bíblia é a Palavra de Deus e, ao mesmo tempo, admitir que ela contém erros?

A questão parece, à primeira vista, pertencer ao campo da crítica bíblica. Contudo, ela nos leva a um problema muito mais profundo. Antes de perguntar o que pensamos sobre a Bíblia, precisamos perguntar o que pensamos sobre Deus.

Se a Escritura é verdadeiramente Palavra de Deus, sua veracidade não pode ser separada do caráter daquele que fala. Se afirmamos que a Bíblia é Palavra de Deus, mas contém erros, o problema não permanece apenas no texto. Em última análise, atribuímos erro ao próprio Deus. A questão da inerrância, portanto, não começa com nossa capacidade de resolver cada dificuldade bíblica. Começa com quem Deus é.

A Bíblia reflete o caráter de seu Autor

Em A Palavra Inerrante, John MacArthur desenvolve essa ligação logo na introdução: Deus se tornou conhecido em sua Palavra, e a Bíblia revela e reflete o caráter daquele que a deu. Por essa razão, uma elevada visão de Deus exige uma elevada visão da Escritura. Não é possível honrar o Autor enquanto tratamos sua Palavra como pouco confiável. Negar sua veracidade não é apenas assumir determinada posição acadêmica sobre um texto antigo. É colocar em dúvida a fidelidade daquele que falou.

A Escritura apresenta Deus como verdadeiro e incapaz de mentir. Se suas palavras procedem dele, elas carregam esse mesmo caráter. A inerrância decorre, portanto, daquilo que Deus é. Sua Palavra é verdadeira porque o Deus que fala é verdadeiro.

Essa convicção aparece no modo como a própria Bíblia fala de si. Os autores bíblicos não apresentam suas palavras meramente como reflexões religiosas acerca de Deus. A Escritura é dada por inspiração divina. Jesus, por sua vez, recebe as Escrituras com plena confiança e declara que elas não podem falhar.

É por isso que a pergunta não pode ser simplesmente: “Existem passagens difíceis?”. Evidentemente existem. A pergunta anterior é: quem é o Autor das Escrituras e que tipo de palavra devemos esperar dele?

Uma convicção mais antiga do que seus críticos

Uma objeção frequente afirma que a inerrância seria uma formulação tardia, criada pelo protestantismo moderno e estranha aos reformadores. Entretanto, a história da igreja revela que essa convicção é muito anterior às controvérsias modernas.

Os cristãos não precisaram utilizar sempre a palavra inerrância para afirmar aquilo que ela significa. Muito antes das formulações modernas, encontramos a convicção de que as Escrituras, por procederem de Deus, são verdadeiras e dignas de confiança.

Lutero e Calvino não dependiam da terminologia posterior para confessar a confiabilidade das Escrituras. A contribuição de teólogos posteriores, incluindo os de Princeton e os responsáveis pela Declaração de Chicago, consistiu em formular com maior precisão uma convicção que já estava presente na tradição cristã. A formulação tornou-se mais detalhada à medida que novas contestações exigiram respostas mais específicas.

A doutrina não nasceu porque a igreja decidiu proteger a Bíblia das descobertas modernas. Ela nasce da convicção de que Deus falou e de que sua Palavra merece confiança.

Inerrância não significa ignorar as dificuldades

Confessar a inerrância não elimina o trabalho da interpretação. A Bíblia chegou até nós por meio de autores humanos, gêneros literários distintos, contextos históricos concretos e diferentes formas de expressão. Há textos difíceis. Há questões relacionadas ao uso do Antigo Testamento no Novo, aparentes contradições, autoria humana, preservação textual e canonicidade.

Essas dificuldades não podem ser simplesmente ignoradas. Elas exigem investigação cuidadosa, atenção ao contexto e respeito às características próprias de cada passagem bíblica.

A diferença está no ponto de partida. Se a Escritura é abordada desde o início com suspeita, o intérprete se coloca como juiz do texto. Se ela é recebida como Palavra de Deus, essas questões continuam exigindo respostas, mas são examinadas dentro de uma postura de confiança e submissão.

A inerrância, assim, possui consequências hermenêuticas. Ela não fornece automaticamente a interpretação de cada passagem, mas estabelece limites para a maneira como nos aproximamos dela. O intérprete não está diante de um texto sobre o qual possui autoridade final. Está diante de uma Palavra que deve ouvir, compreender e obedecer.

A inerrância precisa chegar ao púlpito

É possível confessar formalmente que a Bíblia não contém erros e, na prática, tratá-la como se ela não fosse suficiente ou autoritativa. A defesa da inerrância, portanto, não se limita às discussões teológicas e acadêmicas. Suas implicações alcançam diretamente a vida e a missão da igreja. Se cada palavra da Escritura procede de Deus e é verdadeira, então ela precisa ocupar o centro da pregação. O pregador não recebe a tarefa de tornar a Bíblia relevante por meio de sua criatividade. Sua responsabilidade é expor fielmente aquilo que Deus disse.

A ligação é direta: inspiração, inerrância e pregação pertencem ao mesmo movimento. Porque Deus falou, sua Palavra possui autoridade. Porque possui autoridade, deve ser proclamada com fidelidade. A confiança do pregador não está na esperteza humana, mas no poder da Palavra de Deus operando pelo Espírito.

E a mesma convicção alcança a apologética e a missão. Jesus ordenou aos discípulos que fossem às nações e ensinassem tudo o que ele havia ordenado. Uma missão dessa extensão exige confiança tanto naquele que envia quanto na mensagem que é levada. Não faria sentido chamar as nações à obediência plena a uma revelação cuja veracidade permanecesse incerta.

A inerrância, portanto, não é uma doutrina periférica reservada aos debates teológicos. Ela toca a leitura, a pregação, a defesa da fé, o discipulado e a missão da igreja.

No fim, a pergunta permanece inevitável: a Bíblia pode errar e ainda ser Palavra de Deus? A resposta está onde toda doutrina da Escritura deve começar: no caráter do Deus que fala.

Para continuar a reflexão

Em A Palavra Inerrante, John MacArthur reúne teólogos e pastores para examinar a inerrância das Escrituras em suas dimensões bíblica, histórica, teológica e pastoral. A obra mostra que a confiança na veracidade da Bíblia não depende de ignorar suas dificuldades, mas da convicção de que a Escritura procede do Deus verdadeiro e, por isso, é digna de plena confiança em tudo aquilo que afirma. Essa convicção não pertence apenas ao campo da doutrina: ela determina como a igreja interpreta a Bíblia, prega a Palavra, defende a fé e cumpre sua missão.

Livro do Dia 10 — REFORMA 31

A Palavra inerrante
Perspectivas bíblicas, históricas, teológicas e pastorais

Nota editorial: Este artigo foi adaptado a partir da argumentação desenvolvida por Leland Ryken em A Bíblia como você nunca leu, publicado pela Editora Cultura Cristã.

Share this article
0
Share
Shareable URL
0
Share