O blog da Editora Cultura Cristã

Reforma31 – Dia 07 de 31

E SE O PROBLEMA NÃO FOR QUE PARAMOS DE LER A BÍBLIA, MAS QUE JÁ NÃO SABEMOS MAIS COMO NOS APROXIMAR DELA?

A Bíblia ocupou um lugar central na Reforma protestante. Isso não significa que ela tivesse sido desconhecida durante a Idade Média. Houve muitos movimentos reformistas baseados na Bíblia ao longo da história da igreja, e o antigo mito de uma completa ignorância das Escrituras entre Agostinho e Lutero há muito foi desacreditado. Ainda assim, houve algo único no modo como a Bíblia assumiu o centro do movimento de reforma religiosa do século 16.

Dois acontecimentos contribuíram decisivamente para isso. O primeiro foi o advento da prensa tipográfica, que tornou possível uma disseminação das Escrituras antes inimaginável. O segundo foi o “novo aprendizado”, produzido pela redescoberta das línguas clássicas e pelo estudo crítico das fontes antigas. Juntos, esses acontecimentos abriram novas possibilidades para a tradução, o estudo e a exposição da Bíblia.

Os reformadores queriam que as Escrituras estivessem disponíveis nas línguas comuns da época. Trabalhadores rurais, homens e mulheres comuns deveriam poder ter a Bíblia nas mãos e lê-la com os próprios olhos. Contudo, logo ficou evidente que tornar a Bíblia disponível não resolvia, por si só, a questão de sua interpretação. Era necessário aprender a lê-la.

A Bíblia nas mãos do povo

Os reformadores compartilhavam com os antigos escritores cristãos e com os escolásticos medievais uma elevada compreensão da inspiração e da autoridade da Bíblia. Para eles, Deus fala na Escritura e, por isso, ela possui validade incontestável para o povo de Deus.

O estudo cuidadoso e a audição meditativa das Escrituras não eram considerados mero exercício intelectual. A Palavra deveria alcançar a pessoa. Ao comentar Hebreus 4.12, Calvino insistia que, quando Deus nos aborda por sua Palavra, ele trata seriamente conosco, atingindo nossos sentidos interiores. O estudo da Bíblia tinha como propósito conduzir à comunhão com Deus.

Todavia, a Bíblia também possuía consequências públicas e pessoais. Ela não era simplesmente um texto a ser observado, analisado e interiorizado. Era também um evento, um “acontecimento”. Lutero chegou a descrever a própria Reforma desta maneira: ele ensinou, pregou e escreveu; enquanto isso, a Palavra realizou sua obra.

Essa Palavra, no sentido mais fundamental, é Jesus Cristo, o Logos eterno que se fez carne. É também a Palavra proclamada na pregação. E é ainda a Palavra escrita: o conjunto de textos que podia ser copiado, traduzido, publicado, disseminado, comentado e ensinado.

Foi assim que as Escrituras começaram a ressoar em salas de leitura, debates e púlpitos por toda a Europa.

Quem ensina o leitor a ler?

O desejo de colocar a Bíblia nas mãos de todos trouxe consigo outra questão. Logo ficou evidente que pastores e professores piedosos eram necessários para ensinar o povo a interpretá-la de modo confiável. A Reforma, portanto, não substituiu simplesmente a autoridade da igreja pela interpretação privada de cada indivíduo.

A suficiência da Escritura funcionava no contexto em que a Bíblia era considerada o livro dado à igreja, reunida e guiada pelo Espírito Santo. A relação entre Escritura e tradição tornou-se uma das grandes questões do período. Os reformadores insistiam na precedência da Palavra sobre a igreja: decisões, decretos e tradições deveriam ser julgados pelo critério da Escritura. Isso, porém, não significava escolher entre Escritura ou tradição, Bíblia ou igreja.

É justamente aqui que surge um perigo para leitores posteriores da Reforma.

O princípio de sola Scriptura, quando mal compreendido, pode transformar-se numa justificativa para ignorar aqueles que leram a Bíblia antes de nós. Timothy George chama atenção para o “imperialismo do presente”: a tendência de colocar nossa época, nossos valores e nossa visão de mundo no centro da história, como se o passado cristão fosse algo a ser simplesmente superado.

O resultado é paradoxal. Um princípio reformado pode acabar sendo usado para nos impedir de ler os próprios reformadores.

Timothy George recorda que os evangélicos deram pouca atenção à herança cristã transmitida pelas gerações anteriores, inclusive à prática de ler a Escritura na companhia de todo o povo de Deus. Sola Scriptura não significa uma Bíblia separada da comunidade de seus leitores e intérpretes ao longo dos séculos.

Uma maneira de ler

Há alguns compromissos que caracterizam essa tradição de leitura. A Bíblia é recebida como Palavra de Deus inspirada e revestida de autoridade. Deste modo, não pode ser abordada apenas como outro livro. Deve ser recebida com gratidão, humildade e reverência.

Ela também é lida corretamente à luz da regra de fé: o resumo apostólico da narrativa bíblica, centrada no Deus que cria, redime em Jesus Cristo e envia o Espírito para reunir um povo para seu nome.

A interpretação fiel da Escritura requer uma hermenêutica trinitariana. A Bíblia apresenta uma narrativa coerente cujo ator principal é o Deus que se revelou como Pai, Filho e Espírito Santo. Ler a Escritura é entrar nessa história e conhecer esse Deus, e não outro.

A Bíblia é a frente e o centro na adoração da igreja. Os reformadores queriam que ela lançasse raízes profundas na vida das pessoas e na adoração. A Reforma foi um movimento de teologia aplicada e cristianismo vivido. A Palavra não deveria somente ser lida, estudada, traduzida, memorizada e meditada. Deveria ser incorporada à vida da igreja e quando o povo de Deus se reunia para oração, louvor e proclamação.

É por isso que a pregação recebeu tamanha importância. A preocupação predominante dos reformadores era construtiva: edificar os fiéis. A exegese não deveria permanecer abstrata. A Palavra deveria ser ouvida, pregada e vivida.

Encontrar Cristo nas Escrituras

A Reforma começou com um monge agostiniano estudando atentamente a Escritura e encontrando nela o significado do evangelho: pecadores são justificados por Deus pela sua misericórdia em Jesus Cristo, e não por seus próprios esforços e boas obras. Para os reformadores, não era possível separar essa mensagem central do evangelho da Palavra escrita de Deus.

É nesse ponto que Timothy George conduz sua reflexão ao centro. A Bíblia não era preciosa para os reformadores simplesmente como um manual para uma vida feliz ou uma exposição abstrata sobre Deus. Era preciosa porque nela encontravam Cristo.

E é também por isso que sola Scriptura não significava estudar a Bíblia isoladamente de todos os que a leram antes de nós. A Reforma rejeitou determinada síntese entre Escritura, tradição e autoridade papal; não rejeitou a leitura da Bíblia na companhia da igreja através dos séculos.

Talvez, portanto, a pergunta não seja simplesmente se ainda lemos a Bíblia, mas como a estamos lendo.

Para continuar a reflexão

Em Lendo as Escrituras com os reformadores, Timothy George retorna ao renascimento bíblico do século 16 para examinar como os reformadores receberam, interpretaram, traduziram, pregaram e viveram as Escrituras. Ao acompanhar sua relação com a tradição, seu esforço para colocar a Bíblia nas línguas do povo e o lugar da Palavra na vida e na adoração da igreja, Timothy George mostra que, para eles, ler a Bíblia era muito mais do que ter acesso ao texto: era ouvir nela a Palavra de Deus, encontrar Cristo e permitir que essa Palavra alcançasse a vida do povo de Deus.

Livro do Dia 7 — REFORMA 31

Lendo as Escrituras com os Reformadores
Como a Bíblia assumiu o papel central na reforma religiosa do século 16

Nota editorial: Este artigo foi adaptado a partir da argumentação desenvolvida por Timothy George em Lendo as Escrituras com os Reformadores, publicado pela Editora Cultura Cristã.

Share this article
0
Share
Shareable URL
0
Share