E SE VOCÊ ESTIVER LENDO A BÍBLIA DO JEITO ERRADO?

É possível ler a Bíblia, compreender as palavras de uma passagem e ainda assim não prestar atenção suficiente ao modo como aquela passagem foi escrita. Isso acontece porque tendemos a pensar no conteúdo como algo que poderia ser separado da forma. Procuramos a ideia, a doutrina, o princípio ou a aplicação e, depois de encontrá-los, imaginamos ter chegado à mensagem. Contudo, a Bíblia não nos apresenta seu conteúdo dessa maneira.
Não há conteúdo sem uma forma pela qual ele seja transmitido. A Escritura chega até nós por meio de histórias, poemas, provérbios, profecias, cartas, discursos, visões, genealogias, parábolas e muitas outras formas literárias. O conteúdo bíblico não existe de maneira desencarnada. Ele está encarnado nas formas escolhidas pelos autores. Por essa razão, talvez a pergunta não seja apenas: O que este texto está dizendo? Antes dela, há outra: Como este texto está dizendo aquilo que diz?
O “como” abre a porta para o “quê”
Reconhecer a forma literária não é uma etapa secundária da leitura bíblica. Há um sentido importante em que ela precisa vir primeiro. Não porque a forma seja mais importante que a mensagem, mas porque existe uma ordem no processo de leitura. Se uma mensagem foi transmitida por determinada forma, precisamos compreender essa forma para assimilar corretamente aquilo que foi comunicado. É nesse sentido que Leland Ryken afirma que “o ‘como’ é a porta que se abre para o ‘quê’ da mensagem”.
Uma narrativa não comunica do mesmo modo que um provérbio. Um poema não deve ser lido como uma epístola. Uma visão apocalíptica não funciona como uma narrativa histórica. Uma profecia pode reunir poesia, oráculos, imagens e visões. Cada forma possui características próprias e, consequentemente, requer do leitor uma maneira apropriada de aproximação.
Ignorar essas diferenças significa correr o risco de impor ao texto uma maneira de leitura que ele próprio não pede.
Cada forma tem suas “regras do caminho”
Toda forma literária possui traços distintivos e métodos próprios de análise. Ryken chama esses elementos de “regras do caminho”. Ignorá-los pode levar à má representação do conteúdo bíblico. Mesmo quando a interpretação resultante não chega a ser errada, ela pode perder nitidez porque algumas das melhores ferramentas para compreender o texto foram deixadas de lado.
Em Gênesis, por exemplo, grande parte da verdade é corporificada em personagens, acontecimentos, conflitos e ambientações. O leitor precisa acompanhar o enredo, conhecer as personagens e perceber aquilo que suas escolhas e ações revelam. Deus é o único personagem presente do início ao fim do livro, e as histórias particulares estão inseridas numa realidade em que as pessoas continuamente se relacionam com ele. A própria forma narrativa contribui para tornar essa verdade visível.
Nos livros poéticos, a leitura exige outra disposição. Imagens, metáforas e outros recursos não são adornos que podem ser retirados para que finalmente encontremos o “conteúdo verdadeiro”. Eles fazem parte da maneira escolhida para comunicar a verdade.
O mesmo acontece com cartas, sátiras, profecias, evangelhos e literatura apocalíptica. A Bíblia contém uma extraordinária variedade de gêneros. Sua história inclui narrativa histórica, legislação, poesia, literatura sapiencial, profecia, evangelhos, epístolas e apocalipse.
Ler bem, portanto, exige reconhecer o tipo de texto que está diante de nós.
Isso não acrescenta nada à Bíblia
Aqui surge uma possível objeção. Falar de gênero, estrutura, enredo, personagem, metáfora e outras técnicas literárias não seria impor categorias externas à Palavra de Deus?
A resposta de Ryken é clara: reconhecer as formas literárias da Bíblia não significa acrescentar algo à Escritura. Essas formas já estão lá. Foram os próprios autores bíblicos que escreveram narrativas, compuseram poemas, utilizaram imagens, organizaram discursos, construíram argumentos e escolheram determinadas formas para transmitir seu conteúdo. A tarefa do leitor é descobrir aquilo que os autores colocaram diante dele e que pode ser objetivamente discernido no texto.
A questão, portanto, não é se devemos tornar a Bíblia mais “literária”. Ela já é literária em grande parte de sua composição. A questão é se prestaremos atenção a isso.
Ler a Bíblia em seus próprios termos
Essa abordagem também está ligada a princípios fundamentais da interpretação bíblica. O primeiro é ler de acordo com aquilo que podemos inferir da intenção do autor. Se um autor escolheu comunicar sua mensagem por meio de determinado gênero, há razão para considerar que ele espera que o leitor assimile essa mensagem de acordo com aquela forma.
O segundo é fazer justiça à especificidade do texto. Se determinada passagem é literária por natureza, não podemos tratá-la adequadamente ignorando suas características literárias.
O terceiro é interpretar uma passagem conforme o tipo de escrita que ela representa. Não basta identificar as palavras; é preciso perceber a forma na qual elas foram organizadas.
Isso muda nossa maneira de ler. Em vez de correr imediatamente para um resumo das ideias, começamos a observar o texto. Em vez de reduzir uma história a uma proposição, acompanhamos sua ação. Em vez de transformar poesia em prosa, permitimos que suas imagens façam o trabalho para o qual foram escolhidas. Em vez de tratar todos os livros como se fossem escritos da mesma maneira, reconhecemos a identidade literária de cada um.
A forma não compete com a mensagem. Ela é o modo pelo qual a mensagem chegou até nós. E, se aquilo que os autores bíblicos colocaram em seus escritos era importante para eles, também deve ser importante para seus leitores.
Talvez, então, ler melhor a Bíblia não comece procurando algo que esteja escondido atrás do texto. Talvez comece prestando atenção ao que sempre esteve diante de nós.
Para continuar a reflexão
Em A Bíblia como você nunca leu, Leland Ryken percorre os livros da Escritura em sua ordem canônica, identificando os gêneros, formas, estruturas e técnicas literárias que compõem cada um deles. Seu ponto de partida é simples e decisivo: o conteúdo bíblico chega até nós corporificado em formas literárias, e compreender essas formas nos ajuda a lidar com a própria Escritura em seus próprios termos. Ao reconhecer aquilo que os autores colocaram no texto, aprendemos não apenas o que a Bíblia diz, mas a prestar atenção ao modo como ela escolheu dizê-lo.
Livro do Dia 9 — REFORMA 31
A Bíblia como você nunca leu
Introdução literária aos livros da Bíblia

Nota editorial: Este artigo foi adaptado a partir da argumentação desenvolvida por Leland Ryken em A Bíblia como você nunca leu, publicado pela Editora Cultura Cristã.
