O blog da Editora Cultura Cristã

Por que orar pelo Supremo Concílio

Escrevo esta reflexão e desafio diante da aproximação da 41ª Reunião Ordinária do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil (RO-SC/IPB), a ser realizada em Manaus — pela primeira vez na Região Norte — entre 26 de julho e 2 de agosto, reunindo quase dois mil líderes presbiterianos de todo o país.

Com o crescimento da IPB, o aumento do número de deputados e a maior complexidade de muitos temas em debate — mesmo com o extraordinário avanço dos recursos tecnológicos — a expectativa é enorme. O relator de uma das comissões me informou que se prepara estudando mais de quinhentos documentos, cuja discussão deverá conduzir com amplo conhecimento, propondo decisões que deverá relatar diante de um plenário bem atento e exigente. Outros talvez tenham tarefa ainda maior. Os preparativos são intensos (veja matéria na pág. __ sobre as providências da igreja hospedeira, que está treinando mais de quatrocentos voluntários para servir no SC). E crentes piedosos, certamente, priorizam sua preparação em oração.

Tem sido esta a atitude histórica dos presbiterianos e de seus líderes, seguindo as instruções da Palavra de Deus e a prática reformada: trabalhar arduamente, orar com fervor e, ao mesmo tempo, descansar nas decisões soberanas do Senhor.

Isso me remete a um dos edificantes livros da Cultura Cristã: Se Deus já sabe, por que orar?, de Douglas Kelly. Pastor e teólogo reformado, Kelly lembra que a oração não é incompatível com a soberania divina; ela é precisamente o meio escolhido por Deus para realizar seus decretos eternos.

Como cremos, o Senhor governa todas as coisas “conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11), e, ainda assim, a oração do crente tem eficácia real na história humana (1Cr 4.9-10). O paradoxo é bíblico e deve ser mantido.

Calvino (1509-1564) esclarece nas Institutas (III.20) que a oração não existe para informar Deus ou persuadi-lo a mudar seus planos. Ela existe para nós: para nos aproximar dele, exercitar nossa fé, cultivar gratidão e receber conscientemente aquilo que ele já determinou conceder — inclusive no Supremo de Manaus. É preciso insistir nisso: a oração não altera os decretos divinos; ela é o canal que o próprio Deus estabeleceu para derramar suas bênçãos.

Em uma frase frequentemente atribuída a Søren Kierkegaard (1813-1855) — e indevidamente colocada na boca de C.S. Lewis (1898-1963) no filme Shadowlands (1993) — afirma-se que “a oração não muda Deus; muda quem ora”. Verdade, e mais: o Deus pessoal e soberano não apenas ouve as orações; ele age por meio delas. Negar isso nos empurra novamente para o fatalismo e para a superstição, justamente o que a Reforma combateu ao resgatar o senso bíblico de propósito e providência.

O próprio Jesus nos ensinou a orar: “Venha o teu reino; seja feita a tua vontade”. Essas petições não são mera resignação diante da soberania divina. São convocação à participação. Deus decidiu agir neste mundo também por meio das orações do seu povo.

Aqui cabe a clássica distinção reformada entre vontade decretiva e vontade preceptiva. Oramos segundo aquilo que Deus revelou em sua Palavra, sabendo que nossas petições jamais escaparão de sua vontade soberana. A oração agora não será tentativa humana de dobrar Deus aos nossos planos para o SC, mas obediência ao meio que ele mesmo ordenou para a realização de seus propósitos no evento que se aproxima. Nossas orações não podem confrontar a decisão divina. Os santos não intercedem contra a vontade de Deus, mas apelando ao seu caráter, à sua misericórdia e à manifestação mais plena de sua glória.

Além disso, as próprias orações dos crentes começam em Deus. O Espírito Santo desperta em nós súplicas que refletem a intercessão de Cristo diante do Pai (Rm 8.26). A oração eficaz nasce no céu antes de chegar aos nossos lábios.

Concluindo a abordagem desse paradoxo, Kelly sugere que o mistério da relação entre soberania divina e oração se assemelha, em certa medida, ao mistério da Trindade e das duas naturezas de Cristo: não compreendemos plenamente sua mecânica, mas afirmamos ambas as verdades porque ambas são ensinadas pelas Escrituras.

Deus opera dos dois lados: move quem ora e governa os acontecimentos envolvidos. A aplicação é direta. Ore sem cessar, especialmente por perdidos, pois sua oração pode ser exatamente o meio que Deus escolheu para derramar bênçãos sobre vidas específicas.

Ore sem cessar também pelo SC/2026. Importantes decisões serão tomadas em Manaus, sob a providência soberana de Deus e sustentadas pelas orações do seu povo.

Sim, Deus já sabe. Mas nós não sabemos. Oremos.

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