Segundo anotou em seu Diário,Simonton avistou a ilha de Fernando de Noronha dia 30 de julho de 1859. Depois de tantos dias no mar, aquele foi o que ele registrou como “o panorama mais inusitado com que me deparei nas últimas semanas”.
Foi mais do que isso, porém. Aproximava-se o desembarque no Rio de Janeiro e o início de sua missão. Anoiteceu a quinta-feira 11 de agosto com o Pão de Açúcar e o Corcovado à vista, mas o Banshee ficou retido à entrada do porto do Rio. Não havia vento. Desembarcar, porém, era preciso, e no dia 12 Simonton ficou “[…] acordado desde as quatro da manhã observando as manobras para adentrar o porto contra o vento e a maré”. Ele aprecia a beleza natural da sua nova terra e registra depois em seu Diário suas impressões: “Sentiria dificuldade em descrever a emoção que tomou conta de mim ao ver aqueles picos altaneiros dos quais tenho ouvido falar e lido tantas vezes, os quais me dizem que a viagem terminou e cheguei ao meu novo lar e campo de trabalho. Minhas emoções eram tão conflitantes que eu não conseguiria descrevê-las com fidelidade. Os sentimentos predominantes eram o contentamento pelo final feliz de uma longa viagem e o temor pela grande responsabilidade e pelas dificuldades do trabalho que esperava por mim. Minhas razões para a alegria são fáceis de entender, mas a incerteza do futuro pesa de modo solene e temível, a ponto de moderar as expressões de contentamento”.
A recordação da viagem encerrada trazia gratidão. Simonton a enfrentara com o senso de missão, não perdendo oportunidades para ensinar aos marinheiros a Palavra de Deus. Desfrutou dos prazeres possíveis a bordo, como boas refeições e bons banhos, mas também enfrentou com confiança na Providência o dramático momento em que o Banshee quase foi abalroado por outra embarcação. Agora, o final feliz e a gratidão, mas “o pesado som das ondas batendo nas pedras da praia” é eloquente. Seus pensamentos se voltam para a “grande responsabilidade” e para “as dificuldades do trabalho” que o aguardavam.
Simonton estava atento a oportunidades e dificuldades. No dia 31.08, registrou: “[…] Tive uma conversa com o Dr. Kalley. Ele […] Insiste em que eu me mova em segredo […] Não posso concordar com ele neste ponto. […] Minha presença e meus objetivos aqui não podem ficar escondidos; portanto minha esperança está na proteção divina e no uso de todos os meios prudentes de defesa […]. Sinto-me encorajado pelo aspecto das coisas e esperançoso quanto ao futuro. Existem indicações de que um caminho está sendo aberto aqui para o evangelho”.
Quase dezoito séculos antes, oportunidade e oposição foram o que o apóstolo Paulo também viu em seu ministério: “Ficarei […] em Éfeso até ao Pentecostes; porque uma porta grande e oportuna para o trabalho se me abriu; e há muitos adversários” (1Co 16.8-9).
Com o mesmo olhar a IPB contempla hoje sua própria realidade. E com o coração igualmente no Senhor — para adorá-lo e glorificá-lo — e em seu trabalho, para bem executá-lo.
Avaliamos a jornada empreendida até aqui. Procuramos aprender com o que foi feito no cumprimento da Grande Comissão, onde erramos ou acertamos. Episódios dramáticos e piedosos personagens da história presbiteriana brasileira vêm à nossa memória. Situações de extremo perigo, de violência e de martírio. A Providência, porém, nos preservou para a missão que nos confiou. Desembarcar é preciso.
Este jornal, como órgão oficial da IPB, tem compartilhado com seus leitores o que vem acontecendo nas nossas Igrejas, Forças de Integração e Autarquias, Secretarias Nacionais, Comissões, Institutos, Seminários, Centro de pós-graduação, Juntas, Escolas e Associações. Sendo mensal, o BP não busca informar — o que se harmoniza agora com as agilíssimas mídias sociais —, mas edificar a igreja e sugerir ações e projetos que nascem em diferentes partes do país.
Atuando com tão variados recursos e caminhos, a IPB mapeia as oportunidades e dedica-se ao cumprimento de sua missão. Uma elaborada estratégia a orienta para alcançar outras etnias onde quer que estejam, em terras distantes e hostis, em áreas remotas deste país ou nos bairros de nossas grandes cidades. Regiões brasileiras ainda carentes do evangelho estão em nossa mira. No melhor estilo reformado, a educação tem sido cuidada de diferentes modos. A presença de nossa editora tem sido marcante e a ação das escolas presbiterianas é inspiradora, com a contribuição de excelente sistema de ensino e outros materiais didáticos e bíblicos. Rejeitamos a ideia do chamado “evangelho social” de coloração ideológica e pregamos o puro e simples evangelho de Jesus, que desemboca no cuidado dos necessitados, como se vê nas Escrituras desde os tempos da Lei da Rebusca (Lv 19.9-10; Dt 24.19-21) e dos diáconos da Igreja Primitiva (At 6.1-7).
Temos então uma igreja perfeita? Certo que não, porque com as oportunidades vêm também a oposição. Há muito adversários. Bem que Paulo avisou: “[…] entre vós penetrarão lobos vorazes […] dentre vós mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas […]” (At 20.29-30).
Como agradecemos a Deus sua Providência que fez segura nossa navegação até aqui, confiamos que as responsabilidades e o trabalho à nossa frente serão encarados vitoriosamente. Assim Simonton, como Paulo antes dele, viu e sentiu 167 anos atrás. Assim vimos e sentimos hoje.
