
Christopher Nolan fez de novo. Ele nos entregou cinema em sua forma mais pura de arte, contemplação e espetáculo.
Não quero entrar aqui nos debates sobre o filme ser ou não uma expressão da chamada “cultura woke”. Até porque, se a questão for a fidelidade étnica do elenco ao mundo retratado por Homero, talvez fosse necessário questionar não apenas a escolha de uma ou outra estrela, mas praticamente todo o elenco por não ser grego. E, antes de prosseguir, preciso fazer uma ressalva: há anos eu não via tantos atores talentosos reunidos e funcionando tão bem em cena. E aqui, faço uma menção honrosa à Anne Hathaway, Samantha Morton e, contrariando alguns críticos, Tom Holland.
O que me interessa é outra coisa. Quero abordar por aqui como Nolan tomou um clássico épico, cuja influência atravessa séculos e alcança nossa cultura das mais diversas formas, e o transformou em uma experiência cinematográfica arrebatadora, construída por imagens grandiosas (eu poderia enquadrar alguns frames e colocar como decoração da minha casa, juro), diálogos impactantes e um rigor artístico cada vez mais raro no cinema de grandes produções.
Matt Damon vive um dos grandes papéis de sua carreira. A construção das nuances de seu Odisseu impressiona justamente porque sua odisseia ganha contornos que vão além da jornada de um herói de guerra tentando retornar para casa. Vemos um homem em conflito com o próprio ego, confrontado por seu desejo de controlar o destino e obrigado, repetidas vezes, a encarar as consequências devastadoras de seus atos, inclusive de ter profanado aquilo que, dentro da cosmovisão grega, era considerado sagrado.
E talvez seja justamente aí que A Odisseia encontre um de seus pontos mais interessantes para o espectador. Sobretudo para aqueles que, como nós, enxergam o mundo a partir da fé cristã.
Em determinado momento, Calypso diz a Odisseu que ele precisa se soltar. Sentir a maré. Enfrentar a fúria de Poseidon e confiar que Zeus o conduzirá para casa. É uma cena profundamente marcada pela mitologia que sustenta a narrativa, evidentemente. Mas a imagem que ela produz ultrapassa aquele universo. Nessa cena, nós vemos um homem exausto (e temeroso) de tentar dominar forças que simplesmente não estão sob seu controle.
Odisseu quer voltar para casa, mas durante boa parte de sua jornada parece acreditar que chegará lá por sua capacidade de dobrar as circunstâncias à própria vontade. É um herói conhecido justamente por sua astúcia. Entretanto, quanto mais tenta controlar sua jornada, mais evidente se torna sua pequenez diante do mar. Há algo de familiar nisso, não?
Nós também gostamos da ilusão do controle. Planejamos cuidadosamente o futuro, calculamos riscos, estabelecemos rotas e imaginamos que, se formos suficientemente prudentes, conseguiremos conduzir nossa história exatamente ao destino desejado. Não há nada errado em planejar (eu, inclusive, tenho amado usar um planner para planejar minha rotina, vida e saúde financeira); as Escrituras nos chamam à sabedoria e à responsabilidade. O problema começa quando o planejamento deixa de ser expressão de mordomia e passa a ocupar o lugar da confiança.
E, ainda bem, Cristo nos oferece uma resposta radicalmente diferente daquela apresentada pelo universo de Homero. O cristão não precisa simplesmente “sentir a maré” e esperar que forças superiores sejam favoráveis. Também não está entregue ao capricho de divindades que disputam entre si o destino dos homens. Nós podemos descansar na providência de um Deus que não apenas conhece o caminho, mas governa soberanamente cada parte dele.
Talvez uma das lições involuntárias mais belas que a jornada de Odisseu nos permita contemplar seja que reconhecer nossos limites não significa abandonar a responsabilidade, mas abrir mão da pretensão de soberania. Afinal, existe uma diferença enorme entre conduzir o barco e acreditar que controlamos o mar.
E a fé cristã nos ensina justamente a viver nessa tensão. Trabalhamos, planejamos, escolhemos, perseveramos e assumimos as consequências de nossos atos, mas fazemos tudo isso sabendo que a história não repousa sobre nossos ombros. Como afirma o sábio: “O coração do homem traça o seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos” (Pv 16.9).
Essa verdade torna-se ainda mais significativa quando contrastada com o mundo apresentado na tela. O Odisseu de Nolan precisa atravessar um oceano governado pela ira e pelo favor imprevisível dos deuses. O cristão atravessa suas próprias tempestades sabendo que nenhuma delas está fora do governo daquele que “faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11).
E talvez descansar em Deus seja justamente uma das coisas mais difíceis para criaturas que desejam desesperadamente ter o leme nas mãos. Nesse ponto, é impossível não se lembrar de uma das passagens mais marcantes dos Evangelhos: Pedro deixando o barco para caminhar sobre as águas ao encontro de Jesus. Enquanto seus olhos permanecem em Cristo, ele avança, mas quando sua atenção se volta para a força do vento e para as águas ao seu redor, o medo o domina e ele começa a afundar.
A imagem é poderosa justamente porque nos lembra de que a segurança de Pedro nunca esteve em sua capacidade de dominar o mar, mas naquele que o chamou para fora do barco. A fé cristã não nos promete águas tranquilas, tampouco nos concede controle sobre elas. Ela nos chama a águas profundas e nos convida a confiar naquele a quem até o vento e o mar obedecem.
Curiosamente, essa recusa em buscar segurança pelo caminho mais fácil também pode ser percebida na própria construção do filme.
Em uma época na qual grandes produções frequentemente recorrem ao digital para construir mundos inteiros, Nolan insiste na materialidade do cinema. O mar precisa parecer mar. Os navios precisam ter peso. O espectador precisa sentir que aquilo existe diante da câmera. Há algo de artesanal nessa escolha que, para recorrer ao já popular meme de Martin Scorsese, é absolute cinema. Nolan emprega a tecnologia não para substituir a arte ou facilitar o processo criativo, mas para colocá-la a serviço de uma visão artística comprometida com a experiência cinematográfica. E isso importa, viu?
Não porque efeitos digitais sejam, em si mesmos, inferiores (seria injusto reduzir décadas de trabalho artístico em CGI dessa maneira), mas porque A Odisseia revela o que acontece quando os recursos técnicos não são tratados como atalhos. Nolan parece interessado em recuperar algo que parte do cinema contemporâneo tem perdido, que é a disposição de submeter a técnica à visão artística, e não a visão artística às facilidades da técnica. O resultado é um filme que enche os olhos com texturas e escalas.
E talvez seja por isso que A Odisseia funcione tão bem como experiência cinematográfica. Como em outros filmes que mencionamos recentemente nessa editoria, em uma época acostumada ao imediatismo e ao conteúdo descartável, Nolan nos obriga a contemplar a pequenez de um homem diante da imensidão do mar.
Para Homero, esse homem estava à mercê dos deuses. Para nós, cristãos, a imagem pode nos lembrar de algo infinitamente mais consolador: somos pequenos, sim. Não controlamos o mar, não conhecemos as tempestades que ainda encontraremos pelo caminho e não determinamos soberanamente sequer o próximo porto. Mas conhecemos aquele que governa as águas, e isso muda completamente a maneira como atravessamos o mar.
Gabriela Cesario é jornalista do Brasil Presbiteriano e Coordenadora de Marketing e Eventos da Editora Cultura Cristã