O desembarque de Ashbel Green Simonton no Rio de Janeiro, a 12 de agosto de 1859, deu início à história presbiteriana de que somos participantes. Talentoso líder, o jovem recebeu em 1860 seu cunhado Alexander Blackford, em 1861 Francis Schneider e em 1870 George Chamberlain. Outros foram integrando o grupo pioneiro. José Manoel da Conceição foi ordenado em dezembro de 1865. Nesse mês foi organizado o Presbitério do Rio de Janeiro e em setembro de 1888 o primeiro Sínodo. Por ocasião da promulgação da Constituição de 1950 o concílio maior da IPB passou a se chamar Supremo Concílio. Seguimos o sistema de organização e governo aprendido na Escritura.
Sob a lei divina, a liderança bíblica do povo de Deus foi estruturada sem concentração de poder e, acima disso, prefigurando aquele que detém todo poder e autoridade. Em vez de um único líder reunir todas as funções, o Antigo Testamento distribui autoridade entre diferentes ofícios. Essa pluralidade não é uma fraqueza, mas uma força. Vozes distintas preservam sua individualidade, mas, juntas, geram harmonia.
A lei de Deus rompeu com o padrão dominante do antigo Oriente Próximo. Enquanto os faraós e reis mesopotâmicos acumulavam autoridade política e religiosa, Israel separou as duas esferas. O rei governava a nação; o sumo sacerdote dirigia o culto. A crítica rabínica aos reis hasmoneus (167 a.C. e 37 a.C.) decorreu justamente do fato de terem mesclado ambos os ofícios.
Séculos antes deles, o rei Uzias tentou misturar as funções. Seu longo reinado vinha sendo marcado por prosperidade, expansão militar, obras públicas e fortalecimento nacional. O cronista resume sua trajetória afirmando que ele foi maravilhosamente ajudado por Deus. Contudo, o texto acrescenta uma observação amarga: “Mas, havendo-se já fortificado, exaltou-se o seu coração para a sua própria ruína” (2Cr 26.16).
Uzias entrou no templo para queimar incenso sobre o altar. Só um detalhe litúrgico? Diferença de estilo? Não foi.
Queimar incenso no Lugar Santo era uma função reservada aos sacerdotes descendentes de Arão (Êx 30.7-8; Nm 16–18). Uzias quis adorar a Deus, mas exercendo um ofício que o Senhor não lhe havia confiado.
Azarias, o sumo sacerdote em exercício, não pôs panos quentes. Acompanhado de oitenta sacerdotes descritos como “homens da maior firmeza”, ele confrontou Uzias e o expulsou do santuário (2Cr 26.17-18). O rei, administrador tão competente, ali era um incompetente: não lhe competia oferecer sacrifícios. Os sacerdotes não estavam disputando poder político com ele. Estavam defendendo os limites que o próprio Deus havia estabelecido para cada ofício.
Uzias foi despojado de suas funções, com censura. Ele passou a viver isolado, excluído da casa do Senhor, enquanto seu filho Jotão assumia a administração do reino.
No Novo Testamento, os três ofícios convergem em Cristo. Ele é o Profeta (Dt 18.15; At 3.22), o Sumo Sacerdote (Hb 4–10) e o Rei (Mt 28.18; Ap 19.16). Por isso, na igreja, não aparece um novo rei, nem um novo sumo sacerdote a cada ano. A liderança passa a ser compartilhada por uma pluralidade de presbíteros e supervisionada pela autoridade apostólica sob Cristo, o Senhor da Igreja.
O Concílio de Jerusalém foi um caso paradigmático da dinâmica eclesiástica. Séria questão doutrinária foi levantada. “Então, se reuniram os apóstolos e os presbíteros para examinar a questão” (At 15.6). A sessão não foi privativa, mas apenas apóstolos e presbíteros deliberaram e votaram. Após os depoimentos de Pedro, Paulo e Barnabé, o moderador Tiago conduziu o debate ao seu desfecho submetendo ao plenário uma proposta (At 15.19-21). O moderador tomou o silêncio da casa como aprovação e “Então, pareceu bem aos apóstolos e aos presbíteros, com toda a igreja […]” (v. 22) enviar mensageiros comunicando às comunidades locais a posição do Supremo Concílio de Jerusalém, que as obrigava. Sim, após a decisão tomada, a comunidade presente foi incluída. Mas, convém frisar, não houve uma decisão monárquica episcopal, como querem os episcopais. Não foi uma decisão da igreja local, como querem os congregacionalistas. Apóstolos e presbíteros decidiram. Ninguém decidiu sozinho. Houve deliberação conciliar, a autoridade estava distribuída.
A tradição presbiteriana vê aí uma continuidade importante com a estrutura veterotestamentária. Em Israel, rei, sacerdote e profeta limitavam-se mutuamente. Na igreja, presbíteros (docentes e regentes) administram e pastoreiam a igreja compondo os seus concílios (At 20.17,28). Exercem autoridade de modo compartilhado, representativo, colegiado, de acordo com a Palavra.
O Antigo Testamento distribui os ofícios prefigurando Cristo; o Novo Testamento os reconhece em Cristo e distribui a autoridade da igreja entre concílios, impedindo que qualquer homem reivindique para si a plenitude da autoridade que pertence somente ao Senhor.
Na esteira dessa história, caminhamos para a 41ª reunião do Supremo no templo da Igreja Presbiteriana de Manaus de 26 de julho a 2 de agosto de 2026.

O Supremo chegou. A IPB permanece em oração.