O blog da Editora Cultura Cristã

O QUE AINDA DEVEMOS A CALVINO?

Cinco séculos depois, até onde alcança a herança de João Calvino?

João Calvino é lembrado sobretudo como teólogo e reformador. Entretanto, compreender sua influência exige olhar muito além de sua produção teológica e até mesmo dos limites da igreja.

Em A herança de João Calvino, David W. Hall apresenta o reformador genebrino como um agente transformador cujo legado deixou marcas profundas na história do Ocidente. Para explicar o alcance dessa contribuição, ele propõe uma distinção entre dois tipos de líderes: aqueles que percebem para onde as mudanças estão caminhando e procuram ocupar a dianteira e aqueles que observam a trajetória, concluem que ela precisa de correção e contribuem para mudar seu rumo. É nesse segundo grupo que Hall coloca Calvino.

Em sua avaliação, ele não apenas acompanhou as transformações de seu tempo. Contribuiu para mudar sua direção. David Hall sustenta que a vida depois de Calvino se tornou profundamente diferente daquilo que havia sido antes dele. E onde podemos perceber essa herança?

Uma contribuição que passou pela educação

Hall começa pela educação. A Academia de Genebra ocupava lugar importante no projeto de Calvino. Ela reunia dois níveis de formação: uma escola destinada à educação dos jovens e outra voltada à preparação de pastores. Calvino e Teodoro de Beza estiveram à frente da faculdade de Teologia, e a instituição cresceu rapidamente.

Quando Calvino morreu, em 1564, havia 1.200 alunos na escola e 300 no seminário. Hall considera o estabelecimento da Academia uma das contribuições mais duradouras de Calvino para a sociedade e também um instrumento importante para a continuidade das reformas calvinistas. A educação, porém, não aparece sozinha.

Uma igreja que cuidava dos necessitados

Muitas pessoas não associam imediatamente Calvino à compaixão pelos pobres. Entretanto, chama atenção o cuidado dispensado a órfãos, necessitados, enfermos, idosos e refugiados.

Para Calvino, a compaixão da igreja deveria encontrar expressão concreta por meio do trabalho dos diáconos. Nesse contexto, o Fundo Francês tornou-se um importante instrumento de assistência em Genebra.

Seus diáconos providenciavam, entre outras coisas, moradia para órfãos, idosos e pessoas com deficiência. Essa atuação foi parte importante da maneira pela qual a Reforma alcançou a vida da comunidade. 

Igreja, autoridade e vida pública

A influência que Hall atribui a Calvino também alcança as estruturas da igreja e do governo. Calvino trabalhou pela liberdade da igreja para exercer sua própria responsabilidade, sem que sua consciência e autoridade fossem impedidas pela interferência do Estado. Quando retornou a Genebra em 1541, buscou estabelecer um modo colegiado de governo eclesiástico, composto por pastores e presbíteros, em vez de concentrar autoridade em si mesmo.

Hall relaciona esse modo de pensar também a formas descentralizadas de autoridade na vida civil. Em sua análise, a visão de Calvino sobre a natureza humana ajudava a explicar a necessidade de limites, responsabilidade mútua e mecanismos que impedissem a concentração do poder. 

Assim, a herança que Hall procura identificar não permanece restrita ao púlpito ou à sala de aula. Ela chega à organização da vida em comunidade.

O valor das vocações comuns

Outro aspecto destacado é a compreensão do trabalho. Calvino não desprezava nenhuma vocação lícita. O trabalho digno recebia valor, e o chamado não estava restrito ao ministério eclesiástico.

Medicina, Direito, educação, comércio e outras atividades poderiam ser exercidas como vocações. Hall relaciona essa compreensão à convicção de que toda a vida deveria ser realizada para a glória de Deus.

Portanto, o trabalho cotidiano também fazia parte da visão de mundo que se desenvolveu a partir da Reforma. A preocupação não estava somente no porvir: os cristãos eram chamados a servir em diferentes campos da atividade humana no presente. 

Ao tratar da prosperidade econômica que acompanhou aquele período em Genebra, Hall também faz uma ressalva importante. Ele rejeita a ideia de que, para os calvinistas, o sucesso material fosse sinal de eleição. Calvino advertia contra o desejo desmedido de riqueza e honra e ensinava a confiança em Deus, não nas riquezas.

Ideias que precisavam chegar às pessoas

A herança de Calvino também foi transmitida por meios que ampliavam o alcance das ideias. Um deles foi a música. Calvino desejava que o culto fosse compreensível e que os participantes, e não apenas o clero, pudessem compreender e repetir as verdades das Escrituras. Ele incentivou a tradução dos Salmos para o francês usado em seu tempo. O canto permitia que as verdades bíblicas fossem assimiladas e confessadas pela própria congregação.

Outro meio foi a imprensa. Hall considera especialmente importante a capacidade de Calvino e de seus seguidores de utilizar a impressão para disseminar suas ideias. O número de livros publicados em Genebra cresceu significativamente, e uma rede de distribuição levou publicações para a França e outras regiões da Europa. A imprensa permitia que ideias ultrapassassem as fronteiras da cidade e permanecessem depois da geração que as havia produzido.

Então, o que ainda devemos a Calvino?

Educação. Cuidado com os necessitados. Reflexão ética. Liberdade da igreja. Formas colegiadas e descentralizadas de autoridade. Valorização das vocações. Reflexões sobre economia e trabalho. Música acessível à congregação. Disseminação de ideias pela imprensa.

Esses são alguns dos campos nos quais Hall procura identificar a herança de Calvino. A primeira parte do livro apresenta, ao todo, dez aspectos em que, segundo sua análise, a cultura moderna se tornou diferente por causa do reformador genebrino.

Todavia, Hall não encerra sua avaliação apenas com instituições e ideias. Ao concluir sua apresentação da vida de Calvino, ele volta ao próprio homem: alguém que compreendeu sua vida como um chamado para servir à igreja e à comunidade. É nesse contexto que o autor afirma que, cinco séculos depois de seu nascimento, muitos continuam em dívida com Calvino e com seu serviço. 

E a extensão dessa dívida, para Hall, não pode ser reivindicada por um único grupo. Ao final do livro, depois de reunir avaliações provenientes de diferentes tradições, ele conclui que Calvino não pertence exclusivamente a uma denominação ou tradição religiosa. Seu pensamento e seu trabalho ultrapassaram esses limites e atravessaram tempo e tradição. 

É nesse sentido que a pergunta permanece: O que ainda devemos a Calvino? Talvez seja preciso olhar muito além dos lugares em que normalmente procuraríamos sua herança para perceber a extensão da resposta que David W. Hall propõe.

Para continuar a reflexão

Em A herança de João Calvino, David W. Hall apresenta dez áreas em que identifica a influência do reformador, percorre sua trajetória biográfica e reúne avaliações de Calvino feitas, ao longo das gerações, por representantes de diferentes tradições cristãs.

Livro do Dia 4 — REFORMA 31

A herança de João Calvino
Sua influência na educação, economia e política do Ocidente

Nota editorial: Este artigo foi adaptado principalmente da seção “Dez aspectos em que a cultura moderna é diferente por causa de João Calvino”, com elementos do encerramento de “João Calvino: Uma vida digna de ser conhecida” e da “Conclusão”, de A herança de João Calvino, de David W. Hall, publicado pela Editora Cultura Cristã.

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