O blog da Editora Cultura Cristã

Reforma31 – Dia 19 de 31

E SE SUA SALVAÇÃO DEPENDESSE DA FORÇA DA SUA FÉ?

Há dias em que crer parece fácil. Oramos com confiança, encontramos consolo nas Escrituras e descansamos nas promessas de Deus. Mas há outros em que a fé parece pequena diante das dúvidas, dos pecados e das dificuldades que enfrentamos.

E se nossa salvação dependesse da intensidade dessa fé? Se precisássemos sustentá-la por nossas próprias forças, quem poderia ter certeza de que permaneceria firme até o fim?

A resposta das Escrituras nos conduz a uma distinção fundamental: não somos salvos pela força com que cremos, mas por Jesus Cristo, em quem depositamos nossa fé.

A fé é indispensável à salvação, mas não é o Salvador. Seu valor está naquele a quem ela se dirige. Essa verdade nos ajuda a compreender uma das doutrinas mais consoladoras da fé reformada: a perseverança dos santos. Deus não apenas salva seu povo. Ele também o preserva até o fim.

Uma salvação que começou antes de nós

Quando Paulo apresenta as bênçãos espirituais da salvação em Efésios 1, começa antes da experiência pessoal de qualquer cristão. Ele afirma que Deus nos escolheu em Cristo antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele (Ef 1.4).

Richard D. Phillips, em seu estudo sobre a eleição, compara essa verdade ao fundamento de uma grande construção. Quanto mais elevada a estrutura, mais firme precisa ser seu alicerce. A boa notícia é que a salvação possui um fundamento que ultrapassa nossa experiência, nossas decisões e até mesmo nossa existência. Sua origem está no propósito eterno de Deus.

Isso não significa que a fé seja desnecessária. Cremos verdadeiramente em Cristo e somos chamados a responder ao evangelho. Entretanto, nossa fé não nasce de alguma superioridade espiritual que nos torne mais merecedores da graça. A eleição exclui essa pretensão. Nossa salvação não começou com algo que encontramos em nós mesmos, mas com a livre e graciosa escolha de Deus em Cristo.

A doutrina da eleição não foi revelada para alimentar especulações sobre os decretos divinos. Ela oferece um fundamento seguro à esperança cristã.

A segurança da salvação não começa na firmeza de quem crê, mas na fidelidade daquele que salva.

Escolhidos para pertencer à família de Deus

A predestinação aprofunda essa compreensão. Em Efésios 1.5, Paulo afirma que Deus nos predestinou para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo. Em Romanos 8.29-30, apresenta o propósito divino de conformar os seus à imagem do Filho e conduzi-los à glorificação.

A predestinação, portanto, não trata apenas de um destino estabelecido antecipadamente. Ela revela o propósito amoroso de Deus de receber pecadores em sua família e transformá-los à semelhança de Cristo.

Phillips destaca que a eleição e a predestinação estão relacionadas, mas possuem ênfases distintas. A eleição ressalta a escolha soberana de Deus; a predestinação, seu propósito previamente determinado.

Deus não nos escolheu porque já éramos santos. Escolheu-nos em Cristo para que fôssemos santos. Essa distinção é importante porque impede que transformemos a graça em recompensa por nossas realizações. Também nos lembra que a salvação não termina no perdão dos pecados. Ela inclui nossa adoção, santificação e glorificação.

Aquele que estabeleceu esse propósito eterno não depende da instabilidade humana para realizá-lo.

Quando a fé vacila

O que acontece quando um cristão enfrenta períodos de fraqueza espiritual? É possível que alguém verdadeiramente salvo atravesse crises, caia em pecado ou experimente dúvidas profundas?

A Escritura mostra que sim. Pedro negou Jesus. Davi cometeu pecados graves. Ambos sofreram as consequências de suas ações e precisaram da misericórdia divina. Entretanto, suas quedas não foram a palavra final sobre suas vidas.

Em seu estudo sobre a perseverança dos santos, Michael A. Milton apresenta essa doutrina como uma fonte de segurança e esperança para aqueles que pertencem a Cristo.

Jesus declarou que suas ovelhas ouvem sua voz, seguem-no e recebem dele a vida eterna. Ninguém pode arrebatá-las de sua mão (Jo 10.27-29). Paulo também expressa sua confiança de que aquele que começou boa obra nos cristãos haverá de completá-la até o Dia de Cristo Jesus (Fp 1.6).

Essas promessas não significam que o cristão jamais enfrentará tentações ou dificuldades. Significam que Deus não abandonará aqueles que verdadeiramente pertencem a ele. Pedro explica que somos guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo (1Pe 1.3-5). Observe a relação: Deus nos preserva mediante a fé. Ele não elimina a necessidade de perseverarmos; sustenta-nos para que perseveremos.

Perseverar não é viver sem arrependimento

A perseverança dos santos pode ser facilmente confundida com a ideia de que uma profissão de fé no passado garante a salvação, independentemente de como alguém vive no presente. Contudo, essa não é a doutrina ensinada nas Escrituras.

A segurança cristã não é uma autorização para abandonar a fé, desprezar a santidade ou permanecer deliberadamente no pecado. Aqueles que pertencem a Cristo são chamados a continuar crendo, resistir às tentações, buscar a obediência e permanecer na comunhão da igreja. As advertências bíblicas contra a apostasia devem ser levadas a sério. Milton demonstra que elas não contradizem a perseverança. Pelo contrário, são instrumentos pelos quais Deus exorta seu povo à fidelidade.

A perseverança também não significa que o cristão se torna incapaz de cair gravemente. Significa que Deus não permitirá que seus verdadeiros filhos caiam definitiva e completamente da graça. Por isso, a confiança na preservação divina não enfraquece nosso compromisso com a santidade. Ela nos encoraja a continuar lutando contra o pecado.

Deus não nos preserva tornando a perseverança desnecessária. Ele nos preserva sustentando nossa fé até o fim.

Um Salvador que continua intercedendo

Há outra razão pela qual nossa segurança não depende de nossas próprias forças: Jesus Cristo permanece como nosso grande Sumo Sacerdote.

A. Craig Troxel, ao explicar o sacerdócio de todos os crentes, começa por uma verdade ainda mais fundamental: a perfeição do sacerdócio de Cristo. No Antigo Testamento, os sacerdotes representavam o povo diante de Deus e ofereciam sacrifícios pelos pecados. Cristo cumpriu definitivamente aquilo que esse sacerdócio anunciava. Ele não apenas ofereceu um sacrifício. Ofereceu a si mesmo, de uma vez por todas. Sua morte foi suficiente para satisfazer a justiça divina e reconciliar seu povo com Deus. Sua ressurreição e exaltação confirmam a excelência de sua obra. Agora, Cristo vive para interceder pelos que se aproximam de Deus por seu intermédio (Hb 7.25).

Essa verdade possui consequências profundas para nossa segurança espiritual. Quando pecamos, não precisamos de outro sacrifício. Quando nossa fé enfraquece, não precisamos de outro mediador. Quando enfrentamos acusações e temores, temos um Salvador que permanece diante do Pai como nosso representante.

É dessa suficiência que nasce o sacerdócio de todos os crentes. Por meio de Cristo, cada cristão tem acesso direto ao Pai e pode aproximar-se confiadamente do trono da graça. Isso não elimina a importância dos pastores, presbíteros e demais ministros da igreja. Significa que nenhum deles ocupa o lugar de Cristo como mediador de nossa salvação. Nossa esperança repousa naquele cujo sacrifício é perfeito e cuja intercessão jamais termina.

Uma fé vivida em comunhão

A segurança da salvação também não nos conduz a uma espiritualidade isolada. Deus nos sustenta por meio de sua Palavra, da oração, da comunhão dos santos e dos demais meios de graça que estabeleceu para sua igreja.

O sacerdócio de todos os crentes significa que cada membro possui privilégios e responsabilidades diante de Deus. Somos chamados a adorar, servir, interceder uns pelos outros e empregar nossos dons para a edificação do corpo de Cristo.

A igreja não é formada por cristãos autossuficientes. É uma comunidade de pessoas que dependem da graça divina e precisam umas das outras. Essa dimensão comunitária também aparece na importância dos credos e das confissões.

Em seu estudo, Burk Parsons explica por que a igreja precisa expressar com clareza aquilo que crê. Os credos não substituem as Escrituras nem possuem autoridade igual à Palavra de Deus. São declarações subordinadas à Bíblia, pelas quais a igreja resume, confessa e transmite as verdades da fé cristã.

Quando confessamos nossa fé, reconhecemos que não somos os primeiros a receber o evangelho. Pertencemos a uma comunidade que atravessa gerações e permanece fundamentada na verdade revelada por Deus.

As confissões também nos ajudam a distinguir a doutrina bíblica de interpretações equivocadas e a preservar o ensino recebido. Assim, a fé cristã possui uma dimensão pessoal, mas nunca deve ser reduzida a uma experiência individual.

A fé que Deus preserva não foi feita para viver isolada, mas para crescer em comunhão com Cristo e com seu povo.

Afinal, o que sustenta nossa salvação?

Voltemos à pergunta inicial: e se sua salvação dependesse da força da sua fé?

Se dependesse, nossa segurança oscilaria continuamente. Em alguns dias, estaríamos confiantes; em outros, dominados pelo temor de não termos crido o suficiente. Contudo, a esperança cristã não repousa na intensidade de nossa fé. Repousa na suficiência de Jesus Cristo.

Fomos escolhidos nele antes da fundação do mundo. Fomos predestinados para a adoção de filhos. Somos reconciliados com Deus por seu sacrifício e sustentados por sua intercessão. E o mesmo Deus que iniciou essa obra prometeu completá-la.

Isso não significa que podemos abandonar a fé sem consequências. Significa que Deus preserva seu povo, conduzindo-o continuamente ao arrependimento, à confiança e à obediência. Nossa segurança não é motivo para negligenciar a vida cristã, mas para vivê-la com gratidão, humildade e perseverança.

A pergunta decisiva, portanto, não é se nossa fé será sempre forte. É se aquele em quem depositamos nossa fé é poderoso para nos guardar. E a resposta das Escrituras é motivo de esperança. Não é a força da nossa fé que torna Cristo um Salvador suficiente. É a suficiência de Cristo que sustenta nossa fé, mesmo em meio às nossas fraquezas.

Para continuar a reflexão

Série Fé Reformada – Volume 5, reúne estudos de A. Craig Troxel, Richard D. Phillips, Michael A. Milton e Burk Parsons sobre cinco temas fundamentais da vida cristã: o sacerdócio de todos os crentes, a eleição, a predestinação, a perseverança dos santos e a importância dos credos. Com linguagem acessível e perguntas para discussão, a obra apresenta o fundamento bíblico dessas doutrinas e suas implicações para a segurança da salvação, a santidade, a adoração e a comunhão da igreja.

Livro do Dia 19 — REFORMA 31

Série Fé Reformada – volume 5

Nota editorial: Este artigo foi adaptado dos temas desenvolvidos por A. Craig Troxel, Richard D. Phillips, Michael A. Milton e Burk Parsons em Série Fé Reformada – volume 5, publicado pela Editora Cultura Cristã.

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