VOCÊ SABE EXPLICAR A FÉ QUE DIZ PROFESSAR?
É possível crescer na igreja, frequentar cultos durante anos, conhecer hinos e participar de estudos bíblicos e, ainda assim, não conseguir explicar com clareza aquilo em que se crê.
Foi essa a descoberta desconfortável de Kevin DeYoung quando chegou à faculdade. Embora tivesse passado a infância e a adolescência envolvido na vida da igreja, percebeu, durante uma conversa sobre religião, que tinha dificuldade para expressar as doutrinas fundamentais do cristianismo. Conhecia o ambiente da fé, mas não compreendia suficientemente seu conteúdo.
A experiência levanta uma pergunta que continua necessária: você sabe explicar a fé que diz professar? Se alguém perguntasse o que é o evangelho, por que Jesus morreu ou como um pecador pode ser aceito por Deus, você saberia responder?
Em A fé que nos foi dada, DeYoung reúne diferentes autores para enfrentar esse desafio: recuperar o conhecimento das verdades essenciais do cristianismo e demonstrar como elas devem orientar nossa maneira de viver.
Crescer na igreja não é o mesmo que conhecer a fé
A familiaridade com o ambiente cristão pode produzir uma impressão enganosa de maturidade. Aprendemos expressões, repetimos afirmações e reconhecemos histórias bíblicas. Todavia, conhecer o vocabulário da fé não significa necessariamente compreender seu conteúdo.
O problema não é apenas intelectual. Uma compreensão superficial do evangelho compromete nossa capacidade de discernir o erro, enfrentar dúvidas e viver segundo a Palavra de Deus.
É por isso que o discipulado cristão precisa ir além da participação em atividades religiosas. Precisamos conhecer as Escrituras, compreender suas doutrinas fundamentais e aprender a relacioná-las com a vida cotidiana.
Uma fé recebida precisa tornar-se uma fé compreendida, confessada e vivida.
A fé cristã não começou conosco
Vivemos em uma cultura fascinada pela novidade. Entretanto, a fé cristã não depende da descoberta de uma mensagem inédita. Sua origem está no testemunho de Cristo e dos apóstolos, preservado nas Escrituras.
Ao longo dos séculos, a igreja enfrentou controvérsias e formulou confissões para expressar fielmente aquilo que a Bíblia ensina. Os debates sobre a divindade e a humanidade de Jesus, por exemplo, não eram exercícios abstratos: diziam respeito à identidade daquele que poderia nos salvar.
Séculos depois, a Reforma reafirmou a justificação pela graça, mediante a fé em Cristo. Não se tratava de inventar outro evangelho, mas de recuperar a clareza de sua mensagem.
Conhecer essa história nos ajuda a reconhecer que pertencemos a uma comunidade de fé que atravessa gerações. Recebemos uma herança que deve ser examinada à luz das Escrituras e transmitida com fidelidade.
A doutrina importa porque Deus importa
Para alguns cristãos, doutrina parece sinônimo de discussões complicadas e distantes da realidade. Contudo, aquilo que cremos sobre Deus determina como compreendemos a nós mesmos e o mundo.
Se reduzimos Deus às nossas preferências, perdemos de vista sua santidade e soberania. Se tratamos a Bíblia como um livro qualquer, enfraquecemos sua autoridade. Se transformamos o evangelho em conselhos para melhorar o comportamento, deixamos de reconhecer nossa necessidade de um Salvador.
A mensagem cristã começa com quem Deus é e com aquilo que ele fez por nós. Jesus Cristo morreu e ressuscitou para salvar pecadores. O novo nascimento é obra do Espírito Santo. Na justificação, Deus declara justo o pecador que crê em Cristo, com base na justiça do Salvador. Na santificação, o mesmo Deus transforma progressivamente aqueles que foram unidos a seu Filho.
Essas verdades não são conceitos isolados. Juntas, revelam a grandeza da salvação e nos conduzem à adoração.
A doutrina cristã não existe para alimentar nossa superioridade intelectual, mas para conduzir nosso coração à adoração e nossa vida à obediência.
Não basta saber o que crer
A fé cristã possui consequências concretas. Ela orienta nossa compreensão do trabalho, nossa responsabilidade diante do próximo e nossa maneira de enfrentar questões morais difíceis.
Também nos ensina a amar a igreja local, apesar de suas imperfeições. A comunidade cristã não é um acessório da espiritualidade individual, mas o povo que Cristo ama e no qual somos chamados a crescer.
Nossa adoração deve ser moldada pela revelação de Deus, não pelas preferências pessoais. E nossa missão consiste em anunciar Jesus Cristo para que pessoas de todos os povos o conheçam e o adorem.
A maturidade cristã exige, portanto, a união entre verdade e vida. Não basta defender a doutrina correta se nossas atitudes contradizem aquilo que confessamos.
A próxima geração precisa de mais do que novidades
Ao pensar em transmitir a fé, frequentemente buscamos estratégias inovadoras, linguagens atraentes e recursos capazes de conquistar a atenção das pessoas. Esses instrumentos podem ser úteis, mas não substituem o essencial.
DeYoung insiste que a próxima geração precisa encontrar cristãos que demonstrem paixão por Deus, amor pelas pessoas, santidade de vida e compromisso com a verdade bíblica. Acima de tudo, precisa conhecer o próprio Deus.
Um cristianismo reduzido a entretenimento, moralismo ou identificação cultural não oferece raízes profundas. O evangelho não é, primeiramente, uma mensagem sobre tudo o que devemos fazer por Deus, mas a boa notícia daquilo que Deus fez por pecadores em Jesus Cristo.
A próxima geração não precisa de uma fé inventada para seu tempo, mas da verdade eterna anunciada com clareza, convicção e amor.
Uma fé que podemos confessar e transmitir
Então, você sabe explicar a fé que diz professar? Talvez sua resposta revele que ainda há muito a aprender. Isso não deve produzir desânimo, mas disposição para crescer. A fé cristã não exige conhecimento exaustivo, mas nos chama a conhecer cada vez mais profundamente aquele em quem cremos.
Não somos salvos por nossa capacidade de formular explicações impecáveis. Somos salvos pela graça de Deus, mediante a fé em Jesus Cristo. Justamente por isso, desejamos conhecer, amar e anunciar a verdade que nos libertou.
O futuro da igreja não depende de inventarmos uma mensagem melhor, mas de permanecermos fiéis ao evangelho que nos foi dado.
Para continuar a reflexão
Em A fé que nos foi dada, obra organizada por Kevin DeYoung, diferentes autores apresentam os fundamentos históricos, doutrinários e práticos da fé evangélica. Com prefácio de D. A. Carson, o livro convida cristãos de diferentes gerações a compreender o que creem, viver de acordo com a Palavra de Deus e transmitir fielmente o evangelho.
Livro do Dia 17 — REFORMA 31
A fé que nos foi dada

Nota editorial: Artigo adaptado dos temas e da estrutura de A fé que nos foi dada, organizado por Kevin DeYoung e publicado pela Editora Cultura Cristã.
