AINDA FAZEMOS TEOLOGIA COMO OS REFORMADORES?

Mais de cinco séculos nos separam do início da Reforma Protestante. Desde então, o mundo mudou, as igrejas mudaram e o próprio protestantismo se desenvolveu em diferentes tradições e denominações. Ainda assim, a teologia dos reformadores chegou até nós.
Compreender como isso aconteceu é uma das preocupações de Gerald Bray em Fazendo teologia com os reformadores. Seu propósito não é apresentar uma teologia sistemática nem favorecer um ramo da Reforma em detrimento de outro, mas introduzir o leitor ao mundo em que ela ocorreu, à mentalidade daqueles que a lideraram e à maneira pela qual sua energia e seu entusiasmo espirituais acabaram sendo codificados nas declarações confessionais que hoje estão na base das identidades denominacionais protestantes.
Será que ainda fazemos teologia como eles?
Não houve apenas uma direção
Uma primeira dificuldade aparece quando falamos simplesmente em fazer teologia “como os reformadores”. Uma vez iniciada a Reforma, sua energia teológica não pôde ser conduzida em uma única direção. Diferentes linhas de pensamento surgiram, e mesmo entre os seguidores de Lutero não demoraram a aparecer tensões e divisões.
Os reformadores suíços também desenvolveram diferentes tipos de reforma. Zuínglio, Calvino, os anabatistas e, ainda, os anglicanos fizeram parte de um cenário muito mais diversificado do que uma referência genérica à “teologia da Reforma” pode sugerir.
Lutero ocupa necessariamente um lugar de destaque nessa história. Calvino também se tornou dominante na segunda geração do protestantismo, sobretudo fora da Alemanha. Contudo, as controvérsias posteriores mostraram que interpretar o legado desses homens já era, por si só, objeto de debate.
Sendo assim, fazer teologia com os reformadores não pode significar simplesmente procurar entre eles uma voz única e uniforme.
Homens que lutaram por suas crenças
Também é possível olhar para os reformadores de maneira diferente daquela que durante muito tempo marcou os estudos sobre a Reforma. Bray observa que os relatos históricos foram frequentemente escritos a partir de perspectivas confessionais que tendiam a glorificar uma tradição em detrimento das demais. Hoje, é possível avaliar de maneira mais crítica aqueles que tradicionalmente foram considerados “heróis da fé”.
Isso não significa repudiá-los. Significa reconhecê-los como pessoas que tiveram de lutar por suas crenças e que nem sempre foram bem-sucedidas nessa tentativa. Ao mesmo tempo, Bray não permite que essa constatação nos leve ao extremo oposto. A Reforma Protestante teve papel fundamental na formação do mundo moderno, e suas realizações não devem ser esquecidas nem subestimadas.
Esse equilíbrio é importante quando chegamos à pergunta sobre o que os reformadores ainda podem nos ensinar.
Onde repousa a autoridade?
Ao final de seu percurso pela teologia da Reforma, Bray chega ao que considera uma questão de especial importância: o caráter radical da autoridade espiritual.
Para os protestantes, essa autoridade repousa somente em Deus e nos é revelada em sua Palavra, a Bíblia. Isso não elimina o trabalho teológico. Pelo contrário. A interpretação das Escrituras exige atenção aos idiomas originais e ao contexto em que a revelação foi dada. Diferentes teorias e interpretações surgem, e as teses de estudiosos individuais permanecem abertas ao debate.
Bray faz, porém, uma distinção importante. De um lado estão essas propostas individuais. Do outro, o consenso da tradição teológica protestante. Esse consenso não é infalível, mas permanece como ponto de referência para avaliar novas ideias.
Em última análise, ensinamentos e práticas precisam ser submetidos ao teste de sua conformidade com a Bíblia.
Os reformadores também precisavam de reforma
Esse princípio impede que os próprios reformadores sejam transformados em uma autoridade infalível. Bray reconhece claramente que o trabalho realizado pelos reformadores protestantes dos séculos 16 e 17 não foi perfeito. Segundo ele, eles mesmos teriam sido os primeiros a admitir isso.
A igreja, afinal, estava sempre necessitando de reforma (ecclesia semper reformanda est). Por isso, Bray considera provável que os reformadores ficassem desconcertados se soubessem que algumas de suas formulações particulares da verdade cristã adquiririam, posteriormente, uma espécie de posição canônica ou mesmo uma infalibilidade de fato.
Eles não entendiam seu próprio trabalho dessa maneira. Ao mesmo tempo, acreditavam ter descoberto uma verdade revelada por Deus, uma verdade que permaneceria essencialmente a mesma através do tempo e do espaço.
Então, ainda fazemos teologia como os reformadores?
Cinco séculos depois, as formas exteriores das igrejas que reivindicam a herança da Reforma seriam, em muitos aspectos, surpreendentes para os próprios reformadores. Todavia, Bray identifica uma continuidade fundamental.
No evangelho da salvação pela graça, somente pela fé, eles estariam em harmonia com aqueles que vieram depois deles. E, diante das igrejas que hoje reivindicam sua herança, provavelmente insistiriam em uma fidelidade ainda maior à mensagem que procuraram proclamar. Não para que seus próprios nomes fossem exaltados. Não para que os ancestrais da Reforma fossem glorificados. E sim para que Jesus Cristo fosse verdadeiramente proclamado e exaltado até que ele volte.
Talvez seja justamente aí que a pergunta inicial encontre sua direção. O trabalho dos reformadores não foi perfeito. Suas formulações não eram infalíveis. As tradições que nasceram da Reforma não foram uniformes. Contudo, a autoridade à qual procuravam submeter a teologia não estava neles. Estava em Deus e em sua Palavra.
Para continuar a reflexão
Em Fazendo teologia com os reformadores, Gerald L. Bray conduz o leitor pelo mundo teológico da Reforma, passando pela formação dos reformadores, pelas fontes de autoridade, pela interpretação da Bíblia, pela obra do Espírito Santo, pela comunidade da fé e pelo desenvolvimento das confissões protestantes.
Livro do Dia 3 — REFORMA 31
Fazendo teologia com os reformadores
Os reformadores, os fundamentos da fé e sua influência hoje

Nota editorial
Este artigo foi adaptado do Prefácio e da Conclusão de Fazendo teologia com os reformadores, de Gerald L. Bray, publicado pela Editora Cultura Cristã.
