VOCÊ CRÊ NO JESUS DA BÍBLIA OU NO JESUS QUE IMAGINOU?
Jesus é uma das figuras mais conhecidas da história. Seu nome aparece em conversas sobre religião, amor, justiça e solidariedade. Muitos o admiram como mestre, exemplo moral ou defensor dos necessitados. Contudo, admirar Jesus não significa necessariamente reconhecer quem ele é.
É possível valorizar sua compaixão e rejeitar sua divindade. Celebrar seu nascimento e ignorar que ele existia antes de Belém. Aceitar seus ensinamentos e recusar sua autoridade. Então, a pergunta não é apenas se acreditamos em Jesus, mas em qual Jesus acreditamos.
Se construímos nossa compreensão de Cristo a partir das próprias preferências, corremos o risco de seguir uma imagem criada por nós, em vez daquele que Deus revelou nas Escrituras.
O Jesus que não podemos reinventar
Todos interpretamos a realidade a partir de experiências e expectativas. Com Jesus, não é diferente. Alguns o apresentam principalmente como revolucionário social; outros destacam sua bondade ou o consideram um homem que alcançou extraordinária proximidade com Deus.
Essas interpretações precisam, porém, ser examinadas à luz dos evangelhos. Neles, Jesus ensina, cura, acolhe pecadores e enfrenta a oposição religiosa. Também perdoa pecados, reivindica uma relação singular com o Pai e recebe uma honra que ultrapassa a condição de qualquer criatura.
Donald Macleod, em A Pessoa de Cristo, insiste que os evangelhos nos dão acesso ao Jesus verdadeiro. O Jesus que viveu, ensinou, morreu e ressuscitou é o mesmo Filho eterno de Deus que a igreja confessa e adora. Sua identidade divina não foi acrescentada posteriormente à sua história; ela pertence ao próprio testemunho das Escrituras sobre quem ele é.
O verdadeiro Jesus não é aquele que melhor corresponde às nossas expectativas, mas aquele que Deus revelou nas Escrituras.
Antes de Belém, o Filho já existia
O nascimento de Jesus é central para a fé cristã, mas sua existência não começou ali. João anuncia que o Verbo estava com Deus, era Deus e se fez carne (Jo 1.1,14). O movimento é decisivo: não encontramos um homem que se tornou divino, mas o Filho eterno que assumiu nossa humanidade.
Essa perspectiva também aparece em Hebreus, que apresenta Cristo como o Filho por meio de quem Deus criou todas as coisas e, depois, descreve sua experiência genuinamente humana de sofrimento e tentação. Sua humanidade não diminui sua divindade; revela a profundidade de sua humilhação voluntária.
As narrativas da concepção virginal, em Mateus e Lucas, confirmam o caráter extraordinário de sua vinda. Pelo poder do Espírito Santo, Maria concebeu aquele que seria chamado Filho de Deus. O milagre não significa que Jesus fosse menos humano, mas testemunha a iniciativa divina na chegada do Salvador.
Por que a igreja precisou definir quem Jesus é?
Nos primeiros séculos, surgiram perguntas fundamentais: o Filho é eterno ou foi criado? Possui plenamente a natureza divina? Como sua divindade se relaciona com sua humanidade?
Essas controvérsias não eram simples disputas de palavras. Estava em jogo a identidade daquele a quem os cristãos adoravam. No século 4º, o arianismo negou a plena divindade eterna do Filho. O Concílio de Niceia, em 325, respondeu confessando Cristo como “verdadeiro Deus de verdadeiro Deus”, não uma criatura superior.
Mais tarde, o Concílio de Calcedônia, em 451, afirmou que Jesus é uma só pessoa em duas naturezas: verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, sem confusão nem separação.
Essas formulações não pretendiam substituir os evangelhos por uma invenção posterior. Seu propósito era proteger o testemunho bíblico de interpretações que negavam aspectos essenciais da pessoa de Cristo.
A igreja não formulou seus credos para inventar outro Jesus, mas para confessar com fidelidade o Cristo anunciado pelos apóstolos.
O Filho deixou de ser Deus para tornar-se homem?
Filipenses 2 afirma que Cristo se esvaziou, assumindo a forma de servo e humilhando-se até a morte de cruz. Isso significa que, ao tornar-se homem, ele abandonou seus atributos divinos?
Macleod examina essa questão ao discutir as interpretações da kenosis, ou esvaziamento. A humilhação de Cristo não exige que ele deixe de ser Deus. O Filho eterno assume verdadeira humanidade e a condição de servo sem perder sua identidade divina.
Isso também nos ajuda a compreender suas experiências humanas. Jesus sentiu fome, cansaço e tristeza. Enfrentou tentações reais, mas permaneceu sem pecado (Hb 4.15). Sua humanidade não foi uma representação teatral; sua santidade, por sua vez, não foi comprometida.
Não precisamos diminuir sua divindade para levar sua humanidade a sério. Tampouco precisamos enfraquecer sua humanidade para preservar sua glória. O mesmo Filho eterno que sustenta todas as coisas entrou verdadeiramente em nossa condição.
Por que conhecer o verdadeiro Cristo importa?
Talvez alguém pergunte se essas distinções são necessárias. Não bastaria amar Jesus e seguir seu exemplo? A dificuldade é que nossa salvação depende não apenas de seus ensinamentos, mas de quem ele é.
Se Jesus fosse somente um mestre humano, não seria o Filho eterno que as Escrituras anunciam. Se sua humanidade fosse apenas aparente, não poderia ser reconhecido como aquele que assumiu nossa condição para nos redimir. A identidade do Salvador não é um detalhe secundário da mensagem cristã.
A mesma verdade fundamenta sua singularidade. Quando Pedro anuncia que não há outro nome pelo qual devamos ser salvos (At 4.12), não está proclamando a superioridade moral dos cristãos. Está testemunhando a identidade incomparável de Jesus Cristo.
Não é a intensidade de nossa admiração por Jesus que nos salva, mas a pessoa e a obra do Filho de Deus em quem depositamos nossa fé.
Afinal, em qual Jesus você crê?
Voltemos à pergunta inicial: você crê no Jesus da Bíblia ou no Jesus que imaginou?
Podemos desejar um Cristo que inspire, mas não governe; que acolha, mas nunca confronte; que seja semelhante a nós, mas não verdadeiramente Deus. O testemunho bíblico, entretanto, não permite escolher apenas os aspectos de Jesus que consideramos confortáveis.
Ele é o Filho eterno que se fez homem, viveu sem pecado, morreu e ressuscitou para nossa redenção. Conhecê-lo corretamente não significa compreender exaustivamente o mistério de sua pessoa, mas receber com fé aquilo que Deus revelou.
Essa verdade deve produzir mais do que precisão doutrinária. Deve conduzir à confiança, à obediência e à adoração.
Não somos chamados a adaptar Jesus àquilo que imaginamos, mas a permitir que o Cristo das Escrituras transforme aquilo que cremos.
Para continuar a reflexão
Em A Pessoa de Cristo, Donald Macleod examina o testemunho do Novo Testamento e os grandes debates da história da cristologia. A obra percorre o nascimento virginal, a preexistência e a filiação divina de Jesus, as formulações de Niceia e Calcedônia, a encarnação, o esvaziamento e a impecabilidade de Cristo. Também enfrenta os desafios modernos à sua singularidade, mostrando por que a confissão histórica da igreja permanece indispensável à fé cristã.
Livro do Dia 22 — REFORMA 31
A Pessoa de Cristo
Série Teologia Cristã

Nota editorial: Artigo elaborado a partir do livro A Pessoa de Cristo, de Donald Macleod, publicado pela Editora Cultura Cristã, na Série Teologia Cristã, organizada por Gerald Bray.
