O blog da Editora Cultura Cristã

Reforma31 – Dia 16 de 31

SE DEUS JULGASSE VOCÊ HOJE, EM QUE ESTARIA SUA DEFESA?

Imagine-se diante do tribunal de Deus. Não de um juiz sujeito a erros ou informações incompletas, mas daquele que conhece perfeitamente cada pensamento, intenção, palavra e atitude de sua vida.

O que você apresentaria em sua defesa? Suas boas ações? Sua dedicação à família? Seu compromisso com a igreja? Seriam essas coisas suficientes para justificar você diante de um Deus absolutamente santo?

Essa pergunta está no centro de uma das doutrinas mais importantes da fé cristã: a justificação somente pela fé. O ensino das Escrituras é surpreendente: nossa aceitação diante de Deus não repousa na justiça que conseguimos produzir, mas na justiça de Jesus Cristo, recebida pela fé.

O problema é maior do que imaginamos

Quando pensamos no julgamento divino, frequentemente imaginamos uma comparação entre boas e más ações. Se o saldo for positivo, esperamos ser considerados justos.

Entretanto, a Bíblia apresenta um diagnóstico muito mais profundo. O pecado não consiste apenas em comportamentos isolados. Ele compromete nossa relação com Deus e revela uma natureza inclinada à desobediência. Como Paulo afirma, todos pecaram e carecem da glória de Deus (Rm 3.23).

Isso significa que nosso problema não pode ser resolvido simplesmente com uma quantidade maior de boas obras. Mesmo nossas melhores realizações não eliminam a culpa dos pecados cometidos nem produzem a justiça perfeita exigida pela santidade divina.

Diante desse tribunal, não precisamos apenas de aperfeiçoamento moral. Precisamos de uma justiça que não possuímos.

A pergunta que atravessou a Reforma

No século 16, a justificação ocupou o centro das controvérsias da Reforma Protestante. Martinho Lutero compreendeu que a esperança do pecador não poderia estar em seus esforços para conquistar a aceitação divina. A resposta precisava ser encontrada fora de si mesmo, na pessoa e na obra de Jesus Cristo.

João Calvino também enfatizou que nossa confiança diante de Deus deve repousar inteiramente em Cristo, e não em uma justiça produzida por nós.

A expressão latina sola fide, que significa “somente pela fé”, sintetiza essa convicção. Contudo, a fé não é uma realização humana que substitui as boas obras como novo mérito. Não somos aceitos porque conseguimos acreditar com intensidade suficiente.

A fé é o instrumento pelo qual recebemos Cristo e sua justiça. Seu valor não está em alguma virtude que possua, mas naquele em quem ela deposita sua confiança.

A fé não nos justifica por seu próprio mérito, mas porque nos une a Cristo, em quem encontramos a justiça de que precisamos.

Uma justiça que vem de fora de nós

O apóstolo Paulo ensina que Deus justifica o pecador mediante a fé em Jesus Cristo, independentemente das obras da lei (Rm 3.21-28). Justificar, nesse contexto, não significa declarar que alguém nunca pecou ou que já alcançou perfeição moral. Trata-se de uma declaração judicial: Deus considera justo aquele que está unido a Cristo pela fé.

O fundamento dessa declaração não é a transformação interior do cristão, embora essa transformação acompanhe necessariamente a salvação. Seu fundamento é a justiça de Cristo.

Jesus viveu em perfeita obediência ao Pai, entregou sua vida pelos pecadores e ressuscitou dentre os mortos. Sua obediência e seu sacrifício constituem o fundamento de nossa aceitação diante de Deus.

Quando cremos nele, sua justiça nos é imputada, isto é, creditada em nosso favor. Não somos justificados porque Deus ignora nossos pecados ou reduz as exigências de sua santidade, mas porque Cristo satisfez plenamente as exigências da justiça divina em favor de seu povo.

Assim, a justificação revela simultaneamente a justiça de Deus e a gratuidade de sua graça.

E as boas obras? Não são necessárias?

Uma objeção costuma surgir: se somos justificados somente pela fé, então a maneira como vivemos deixou de importar?

De modo algum. O Novo Testamento ensina que a fé verdadeira produz uma vida transformada. Tiago adverte que a fé sem obras é morta (Tg 2.17). Paulo afirma que somos salvos pela graça, mediante a fé, para praticarmos as boas obras que Deus preparou para nós (Ef 2.8-10).

Esses ensinamentos não se contradizem. Paulo combate a ideia de que podemos conquistar uma posição justa diante de Deus por nossos esforços. Tiago confronta a pretensão de possuir uma fé genuína sem que ela produza obediência.

As boas obras, portanto, não são o fundamento da justificação, mas o fruto necessário de uma fé viva. Aquele que foi alcançado pela graça não permanece indiferente à vontade de Deus.

As boas obras não são a causa de nossa aceitação diante de Deus, mas o fruto da graça que nos alcançou em Cristo.

Por que essa doutrina continua necessária?

Séculos depois da Reforma, a justificação somente pela fé permanece no centro de importantes debates teológicos. Questões sobre a justiça imputada, a relação entre fé e obras e o julgamento final continuam exigindo atenção às Escrituras.

Essas discussões não são meramente acadêmicas. Elas determinam onde depositamos nossa confiança diante de Deus.

Se nossa aceitação depender, em última instância, do grau de santidade que alcançamos, jamais teremos fundamento seguro para descansar. Afinal, quem poderia afirmar que sua obediência é perfeita?

A justificação não elimina nosso chamado à santidade. Pelo contrário, oferece o fundamento para buscarmos a obediência sem transformá-la em motivo de vanglória. Também nos ensina a olhar para os outros com humildade, pois tudo o que temos foi recebido pela graça.

Nossa esperança para o último dia

Voltemos à pergunta inicial: se Deus julgasse você hoje, em que estaria sua defesa?

A resposta cristã não consiste em apresentar uma lista de boas ações, reivindicar uma vida sem falhas ou confiar no progresso espiritual alcançado. Nossa única defesa suficiente é Jesus Cristo. Sua obediência, não a nossa, constitui o fundamento da justificação. Sua justiça, recebida pela fé, permite que compareçamos diante de Deus sem depender de méritos pessoais.

Isso não torna a santificação dispensável. Significa que nossa transformação é fruto da salvação, não o preço pago para obtê-la.

A justificação somente pela fé nos liberta de duas ilusões: a de que podemos salvar a nós mesmos e a de que nossos pecados são grandes demais para a suficiência da obra de Cristo.

No tribunal de Deus, nossa esperança não está no que fizemos por Cristo, mas no que Cristo fez por nós.

Quando chegar o dia em que estaremos diante do Juiz de toda a terra, nossa esperança não estará em nossas realizações, mas no Salvador que morreu e ressuscitou por nós. Nossa defesa será Cristo. Porque a justiça que nos salva não é aquela que produzimos, mas aquela que recebemos dele pela fé.

Para continuar a reflexão

Em Somente pela fé – A doutrina da justificação, Thomas R. Schreiner examina o desenvolvimento histórico, o fundamento bíblico e os debates contemporâneos sobre a justificação. A obra demonstra por que a justiça de Cristo, recebida somente pela fé, permanece essencial para compreender o evangelho e encontrar segurança diante de Deus.

Livro do Dia 16 — REFORMA 31

Somente pela fé
A doutrina da justificação

Nota editorial: Artigo adaptado dos temas de Somente pela fé – A doutrina da justificação, de Thomas R. Schreiner, publicado pela Editora Cultura Cristã, na série organizada por Matthew Barrett.

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