Calvino não parecia procurar uma vida pública. Entre 1534 e 1536, passou por Paris, Poitiers, Orleans, Estrasburgo, Basileia e Itália. Ele próprio se descrevia como alguém retraído. Sua timidez o fazia procurar algum lugar recluso onde pudesse estudar em paz. Contudo, o isolamento que desejava não durava. Pessoas interessadas na doutrina aproximavam-se dele em busca de ensino, ainda que Calvino se considerasse apenas um noviço e principiante.
Foi também nesse período que surgiu a primeira edição das Institutas da Religião Cristã. A obra era ainda comparativamente curta. Na França, a fé reformada era confundida tanto com ensinamentos grosseiros quanto com doutrinas consideradas sediciosas e revolucionárias, e seus seguidores eram perseguidos.
Calvino queria oferecer um relato justo de suas crenças. Entretanto, havia também um objetivo pastoral. Ele encontrara compatriotas “famintos e sedentos por Cristo”, embora sem instrução, e desejava oferecer-lhes um manual que os ajudasse a entender. A teologia começava a encontrar as necessidades de pessoas reais.
Uma parada em Genebra
Em 1536, depois de passar pela Itália, Calvino pretendia seguir para Estrasburgo ou Basileia. Uma guerra, porém, obrigou-o a mudar o caminho e passar por Genebra. Ali encontrou Guillaume Farel.
Farel havia participado ativamente da Reforma da igreja na cidade e acreditava precisar desesperadamente da ajuda de Calvino. Este, entretanto, pretendia ficar em Genebra apenas uma noite.
Farel não aceitou seus planos. Convencido de que Deus havia enviado Calvino naquele momento, advertiu-o severamente contra abandonar o trabalho. Mais tarde, Calvino confessaria que permaneceu em Genebra não tanto por causa do conselho e da exortação de Farel, mas por sua apavorante imprecação. Parecia-lhe que “dos céus a mão de Deus” o havia alcançado.
O homem que procurava reclusão para estudar estava sendo levado ao serviço de uma comunidade.
Do professor ao pastor
O primeiro trabalho de Calvino em Genebra foi como professor. Ele assumiu inicialmente o ofício de doutor. Logo, porém, sua capacidade como pregador tornou-se evidente, e ele foi chamado também ao pastorado. Para Calvino, esse era um ofício elevado e abrangente dentro da igreja: envolvia o cuidado e a disciplina do rebanho, a manutenção da unidade, a pregação e o ensino.
Em Calvino, Genebra e a Reforma, Ronald Wallace chama atenção para uma consequência importante dessa mudança. Na liderança ativa do povo de Deus e no relacionamento próximo com ele, Calvino podia verificar tanto a fidelidade de seu ensino à Palavra de Deus quanto sua eficácia. Precisava trabalhar as implicações da Reforma para a vida cristã e para o bem da comunidade. Uma vida inteiramente acadêmica não seria suficiente. O trabalho próximo à linha de frente impediu que ele se transformasse apenas em um teórico eclesiástico, distante do próprio rebanho.
A Palavra pregada
A pregação regular da Palavra levou Calvino ao coração do movimento da Reforma. Wallace considera que foi por meio de sua pregação, mais do que por qualquer outro aspecto de sua obra, que Calvino exerceu sua extraordinária influência.
A pregação já havia produzido efeitos sobre comunidades em outros períodos da história da igreja. Durante a Reforma, porém, aquilo que anteriormente aparecia de maneira ocasional tornou-se, por algum tempo, uma experiência comum na vida da igreja.
Pregadores exerciam influência sobre suas comunidades. Em períodos críticos, a pregação podia produzir mudanças de atitudes e de atmosfera. Os próprios reformadores estavam conscientes dessa força.
Havia também, segundo os relatos daquele período, um desejo incomum entre o povo de ouvir a pregação da Palavra de Deus. Isso já aparecera na experiência inicial de Calvino, quando se viu cercado por pessoas sedentas de ensino. A demanda por pastores capazes de pregar a Palavra tornou-se intensa no mundo reformado.
Em Genebra, as multidões que compareciam para ouvir Calvino e outros pregadores não estavam simplesmente submetidas a uma disciplina imposta. As pessoas queriam ouvir a Palavra.
Reforma, política e resistência
Isso não significa que a transformação de Genebra tenha ocorrido de maneira simples. Wallace reconhece expressamente que forças políticas participaram das mudanças na cidade. Conflitos de interesses, disputas entre autoridades e acontecimentos militares também fizeram parte daquele processo.
Genebra havia sido reformada nominalmente, mas ainda não inteiramente de coração. E o início do ministério de Calvino terminou em fracasso. Ele e seus colegas esperavam que a adesão à confissão de fé e o progresso moral acontecessem de maneira ampla e rápida. Subestimaram a reação local e não perceberam suficientemente a desconfiança de uma população recentemente libertada de Roma diante de tudo aquilo que pudesse parecer uma nova tirania.
As tensões aumentaram. Um confronto relacionado à adoração e à disciplina agravou a crise e, em 1538, Calvino foi obrigado a deixar Genebra.
O aprendizado de Estrasburgo
O exílio levou Calvino a Estrasburgo. Ali, a igreja e a vida da cidade exerceram profunda influência sobre seu pensamento e sua atitude. Ele conheceu o trabalho de Martin Bucer e se deparou com uma comunidade na qual diferentes tradições se encontravam e trocavam ideias.
Calvino pôde desenvolver sua filosofia pastoral e sua pregação servindo uma congregação francesa relativamente pequena. Nesse contexto, experimentou suas convicções sobre disciplina sem a forte tensão que marcara Genebra. Wallace ressalta que sua preocupação principal não era simplesmente o progresso moral, mas o cuidado pastoral do indivíduo.
Também participou do desenvolvimento de uma liturgia francesa, preparou cânticos e salmos para a adoração e conheceu outras experiências de organização da vida cristã. O que viu e experimentou em Estrasburgo ajudaria decisivamente a moldar seu programa posterior em Genebra. O fracasso havia se tornado também aprendizado.
De volta à comunidade
Mesmo longe de Genebra, Calvino não deixou de se preocupar com seu antigo rebanho. Quando o cardeal Sadoleto procurou convencer a cidade a retornar à Igreja romana, Calvino respondeu. Para Wallace, sua resposta a Sadoleto mostrava que ele ainda se importava suficientemente com aquela comunidade para defendê-la.
Pouco depois, os próprios genebrinos começaram a desejar seu retorno. Calvino resistiu. As lembranças de sua primeira experiência na cidade lhe causavam medo e abatimento. Voltar estava longe de corresponder às suas inclinações pessoais. Contudo, ele entendeu que não pertencia a si mesmo. Submeteu seu desejo ao que compreendia ser o chamado de Deus.
Em 13 de setembro de 1541, Calvino voltou a Genebra. Aquele que buscara um lugar recluso para estudar retornava à comunidade na qual sua teologia, sua pregação e seu ministério seriam novamente colocados diante das necessidades, dos conflitos e da vida concreta de um povo.
Para continuar a reflexão
Em Calvino, Genebra e a Reforma, Ronald S. Wallace acompanha Calvino em sua atuação como teólogo, pregador, pastor e reformador, mostrando como seu ministério se desenvolveu em contato direto com a igreja e com a vida da comunidade.
Livro do Dia 5 — REFORMA 31
Calvino, Genebra e a Reforma
Um estudo sobre Calvino como um reformador social, clérigo, pastor e teólogo

Nota editorial: Este artigo foi adaptado exclusivamente do capítulo 2, “Chamado e início do ministério”, de Calvino, Genebra e a Reforma, de Ronald S. Wallace, publicado pela Editora Cultura Cristã.

