O blog da Editora Cultura Cristã

QUAL FOI A GRANDE IDEIA QUE ORIENTOU A REFORMA?

Para muitos reformadores, renovar a igreja significava voltar às origens da fé cristã.

Quando pensamos na Reforma do século 16, podemos ser tentados a enxergá-la principalmente como uma reação aos problemas da igreja daquele período. E havia muitos deles.

No início do século 16, era evidente que a igreja na Europa ocidental precisava de reformas. Havia problemas administrativos, morais e legais. A burocracia eclesiástica era ineficiente e corrupta, a conduta de parte do clero causava escândalo e muitos cargos importantes da igreja eram obtidos mais por influência familiar, política ou financeira do que por qualificações espirituais.

Para muitos, portanto, reformar significava corrigir abusos: melhorar a formação do clero, combater a imoralidade, reorganizar a administração e eliminar a corrupção. Para outros, porém, o problema era também espiritual. Era necessário recuperar a vitalidade e o frescor da fé cristã. Havia aqueles que olhavam para a simplicidade e o entusiasmo do cristianismo apostólico e se perguntavam se seria possível recuperar algo daquela antiga vitalidade voltando aos documentos do Novo Testamento. Contudo, alguns reformadores foram ainda mais longe.

O problema era mais profundo

Para observadores como Martinho Lutero, em Wittenberg, e João Calvino, em Genebra, a igreja havia perdido contato com sua herança intelectual e espiritual. O estado em que ela se encontrava não era visto simplesmente como resultado de problemas administrativos ou morais. Para eles, havia uma questão mais profunda: ideias distintivas da fé cristã haviam sido obscurecidas por desenvolvimentos ocorridos ao longo da Idade Média.

Não bastava reformar as estruturas da igreja. Era necessário reformar também sua doutrina, sua teologia e suas ideias religiosas. E isso colocava diante dos reformadores uma questão fundamental: o que o cristianismo realmente deveria ser?

Na perspectiva apresentada por McGrath, em O pensamento da Reforma, o cristianismo não poderia ser reformado sem que essa pergunta fosse enfrentada. Era necessário retornar a uma forma mais pura e renovada da fé cristã.

É nesse contexto que os reformadores ecoaram um importante clamor de sua época: “de volta às origens” (ad fontes); de volta à Era Dourada da igreja, de modo a reivindicar seu frescor, pureza e vitalidade em meio a um período de estagnação e corrupção.

De volta às origens

Esse retorno é fundamental para compreender o pensamento da Reforma.

Ao apresentar um panorama das preocupações religiosas dos reformadores, McGrath identifica a convicção que motivava os reformadores magistrais: o cristianismo poderia ser mais bem reformado e renovado por meio de um retorno às crenças e práticas da igreja primitiva.

Os primeiros cinco séculos da história cristã eram frequentemente considerados uma espécie de Era Dourada do cristianismo. A visão de muitos reformadores do século 16 podia ser resumida pela expressão latina christianismus renascens: “cristianismo renascido”. Como esse renascimento poderia acontecer?

Os reformadores chamavam a atenção para a vitalidade do cristianismo do período apostólico, testemunhado pelo Novo Testamento. Eles acreditavam que era possível, e necessário, recuperar o espírito e a forma daquele período decisivo da história cristã. Isso exigia voltar ao Novo Testamento e também aos seus primeiros intérpretes. Ali deveriam ser buscadas as fontes da crença e da prática cristãs.

Reforma como retorno

Essa perspectiva ajuda a compreender por que a Reforma não pode ser entendida apenas como uma tentativa de corrigir os abusos visíveis da igreja.

Os reformadores também questionavam aquilo que consideravam adições e distorções da fé cristã. Entre os exemplos apresentados por McGrath estão a doutrina do purgatório e a prática associada da venda de indulgências. Na compreensão dos reformadores, elementos como esses deveriam ser confrontados mediante um apelo às crenças e práticas da igreja primitiva.

A igreja primitiva tornava-se, assim, um importante ponto de referência para o projeto de reforma e renovação. O objetivo era voltar às origens para recuperar os ideais do cristianismo. É justamente isso que ajuda a explicar a importância que os reformadores atribuíam a duas fontes: o Novo Testamento e os primeiros escritores cristãos, tradicionalmente conhecidos como os Pais da Igreja ou escritores patrísticos. Era nesses escritos que os reformadores acreditavam poder encontrar elementos para a renovação da igreja.

A Bíblia e os Pais da Igreja

Esse retorno às origens ganhou força graças a importantes transformações intelectuais daquele período.

O desenvolvimento dos estudos do grego e do hebraico tornou possível um contato mais direto com os textos bíblicos. Novas técnicas de estudo dos textos também ajudaram a abrir caminho para um envolvimento renovado com o Novo Testamento. Ao mesmo tempo, os escritos dos Pais da Igreja se tornavam mais acessíveis.

Nesse contexto, a publicação do Novo Testamento grego e de uma edição das obras de Agostinho representou um passo importante para o programa de reforma. McGrath observa que, para Lutero, o programa de reforma desenvolvido na Universidade de Wittenberg por volta de 1519 podia ser resumido em uma expressão simples: “a Bíblia e Santo Agostinho”.

As novas ferramentas intelectuais disponíveis naquele momento pareciam tornar possível aquilo que os reformadores desejavam: voltar às fontes e, a partir delas, redescobrir o cristianismo que procuravam recuperar.

Então, qual foi a grande ideia que orientou a Reforma?

Se procurarmos uma única doutrina que explique todos os movimentos e personagens da Reforma, simplificaremos um fenômeno que McGrath apresenta como muito mais complexo. Contudo, ao tratar especificamente dos reformadores magistrais, ele identifica uma convicção fundamental: o cristianismo precisava ser reformado e renovado mediante um retorno às crenças e práticas da igreja primitiva.

A grande visão de muitos reformadores era a de um “cristianismo renascido”, por isso, reformar significava olhar para trás. Voltar às fontes. Voltar ao Novo Testamento. Voltar aos primeiros testemunhos da tradição cristã. E procurar ali os referenciais para a reforma e a renovação da igreja.

O programa parecia simples. O próprio McGrath, porém, encerra sua apresentação advertindo que ele continha dificuldades consideráveis. Essas dificuldades que são exploradas ao longo de O pensamento da Reforma.

Para continuar a reflexão

Em O pensamento da Reforma, Alister E. McGrath apresenta, explica e contextualiza as principais ideias religiosas da Reforma europeia do século 16. A obra percorre seus antecedentes intelectuais, apresenta seus principais reformadores e examina temas como o retorno à Bíblia, a justificação pela fé, a igreja, os sacramentos e a predestinação, além da difusão e do impacto histórico do pensamento reformador.

Livro do Dia 2 — REFORMA 31

O pensamento da Reforma
Ideias que influenciaram o mundo e continuam a moldar a sociedade

Nota editorial
Este artigo foi adaptado de trechos do capítulo 1, A Reforma: uma introdução, especialmente das seções “O clamor por uma reforma” e “Breve panorama das preocupações religiosas dos reformadores”, do livro O pensamento da Reforma, de Alister E. McGrath, publicado pela Editora Cultura Cristã.

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