O blog da Editora Cultura Cristã

INVENÇÃO OU RESGATE?

As verdades recuperadas pelos reformadores eram realmente novas?

Quando pensamos na Reforma Protestante, é natural que nossa atenção se volte para o século 16. Afinal, foi nesse período que Martinho Lutero e outros reformadores se levantaram em defesa de doutrinas que se tornariam marcas do protestantismo. No entanto, essa associação pode produzir uma impressão equivocada: a de que a herança teológica protestante teria apenas cerca de 500 anos.

Foi justamente uma questão como essa que levou Nathan Busenitz a iniciar a pesquisa que resultaria no livro Muito antes de Lutero. Se as doutrinas defendidas pelos reformadores não existiam antes do século 16, então a Reforma teria introduzido algo novo na história da igreja. Seria realmente esse o caso?

A pergunta se torna especialmente importante quando consideramos uma das doutrinas centrais da Reforma: a justificação pela fé somente.

Uma doutrina inventada pelos reformadores?

A expressão latina sola fide (“somente pela fé”) tornou-se um dos grandes lemas da Reforma Protestante.

Para os reformadores, essa doutrina estava no centro da compreensão correta do evangelho. Negativamente, ela rejeita a ideia de que o perdão dos pecados e a aceitação diante de Deus possam ser conquistados pelo esforço humano ou pela virtude moral do pecador. Positivamente, afirma que a salvação concedida por Deus está fundamentada inteiramente na obra consumada de Cristo e é recebida pela graça, por meio da fé nele.

Isso não significava que os reformadores considerassem as boas obras irrelevantes. Pelo contrário, ensinavam que a verdadeira fé produz arrependimento e obediência. As obras, porém, são fruto e consequência da salvação, e não sua raiz ou causa.

No século 16, esse entendimento entrou em confronto com a posição católico-romana sobre a justificação. Enquanto o catolicismo romano entendia a justificação como um processo que dependia, ao menos em parte, da maneira como a pessoa conduzia sua vida, reformadores como Martinho Lutero, Filipe Melâncton e João Calvino afirmavam que a justificação era obra de Deus: ele declara justos os que creem, não com base nas boas obras realizadas por eles, mas na justiça de Cristo.

Foi nesse contexto que surgiu uma acusação decisiva: os reformadores estariam criando uma nova versão do evangelho.

A questão, portanto, não era pequena. O que eles ensinavam representava uma inovação teológica do século 16 ou o resgate de uma verdade que os precedia?

Reformadores ou revolucionários?

Os próprios reformadores não se consideravam inventores de uma nova religião.

Busenitz apresenta a posição protestante tradicional como uma busca não por inovação, mas por renovação. Os reformadores entendiam que sua autoridade final era a Palavra de Deus. Ao mesmo tempo, recorriam aos pais da igreja como fonte secundária para demonstrar que aquilo que ensinavam possuía antecedentes na história cristã.

João Calvino, por exemplo, sustentava que os ensinamentos defendidos pelos reformadores encontravam apoio nos pais da igreja. Filipe Melâncton também rejeitava a acusação de que a Reforma havia abandonado o ensino da igreja antiga, apelando particularmente para Ambrósio e Agostinho.

Essa convicção continuaria a aparecer posteriormente em autores protestantes que defendiam que a doutrina da justificação não havia surgido pela primeira vez com Lutero e Calvino.

A Reforma, nessa perspectiva, não pretendia criar uma nova fé cristã, mas recuperar uma verdade que havia sido obscurecida.

Mas todos concordam com isso?

Não. E esse é um ponto importante no argumento de Busenitz.

A afirmação de que a justificação pela fé somente possui antecedentes anteriores à Reforma não é aceita apenas por críticos católico-romanos. Alguns estudiosos protestantes também questionaram essa interpretação histórica.

Entre eles está Alister McGrath, cujo estudo sobre a história da justificação ocupa lugar importante nessa discussão. Segundo a análise apresentada por Busenitz, McGrath considera que o entendimento da justificação defendido pelos reformadores constituiu uma novidade do século 16, não encontrada no pensamento cristão dos quinze séculos anteriores.

Para analisar essa afirmação com precisão, Busenitz destaca três características fundamentais da doutrina reformada da justificação.

A primeira é a justificação forense. Os reformadores entendiam a justificação como uma declaração de Deus: como um juiz que declara o pecador justo, em contraste com a ideia de um processo pelo qual ele progressivamente se torna justo.

A segunda é a distinção entre justificação e regeneração ou santificação. Na justificação, Deus declara o pecador justo; na regeneração, ele o renova, dando início ao seu crescimento em santidade.

A terceira é a justiça imputada de Cristo. Os reformadores ensinavam que as boas obras não contribuem para a justificação. Deus justifica o pecador com base na perfeita justiça de Cristo que lhe é creditada.

A questão não é simplesmente se alguém utilizou, antes de Lutero, determinadas palavras ou expressões que posteriormente se tornariam características da Reforma. A investigação proposta é outra: há, antes da Reforma, testemunhos dos elementos fundamentais que constituem o entendimento reformado da justificação?

Onde estava o evangelho antes da Reforma?

Essa pergunta não é apenas teórica. A própria pesquisa de Busenitz começou depois de uma discussão sobre a afirmação de que as principais doutrinas da Reforma não possuíam respaldo histórico anterior ao século 16. O debate concentrou-se especialmente em sola Scriptura e sola fide.

Para Busenitz, a alegação de que o entendimento reformado do evangelho era inteiramente novo traz consequências importantes. Se a justificação pela fé somente apareceu apenas no século 16, o que devemos pensar dos primeiros 1.500 anos da história da igreja? E sobre quais fundamentos históricos os protestantes poderiam defender a justificação forense, a distinção entre justificação e regeneração e a justiça imputada de Cristo?

Por outro lado, se for possível demonstrar que o entendimento reformado da justificação foi exposto pelos autores bíblicos e posteriormente prenunciado por líderes da igreja anteriores à Reforma, a situação é bastante diferente.

É justamente essa investigação que Muito antes de Lutero se propõe a realizar.

Então, a Reforma começou em 1517?

Se entendermos a pergunta como uma afirmação de que as verdades teológicas defendidas pelos reformadores nasceram no século 16, é precisamente essa ideia que Busenitz coloca sob investigação.

Seu ponto de partida é que o entusiasmo legítimo pela Reforma pode gerar uma impressão involuntária: a de que a herança teológica protestante possui apenas cerca de cinco séculos.

A proposta de Muito antes de Lutero é olhar para trás. Muito antes de 1517. Muito antes de Lutero. E investigar se a doutrina da justificação pela fé somente, que ocupa posição central no evangelho defendido pela Reforma, pode ser encontrada desde Cristo e se seus elementos fundamentais foram prenunciados por líderes da igreja antes do século 16.

A pergunta que abre essa investigação permanece: Invenção ou resgate?

Para continuar a reflexão

Muito antes de Lutero, de Nathan Busenitz, investiga a história da doutrina da justificação pela fé somente, percorrendo os séculos anteriores à Reforma e examinando se aquilo que os reformadores proclamaram no século 16 era realmente uma novidade.

Livro do Dia 1 — REFORMA 31

Muito antes de Lutero
Em busca da essência do evangelho desde Cristo até a Reforma

Nota editorial
Este artigo foi adaptado da Introdução e do capítulo 1 – Invenção ou resgate?, do livro Muito antes de Lutero, de Nathan Busenitz, publicado pela Editora Cultura Cristã.

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