O blog da Editora Cultura Cristã

Fidelidade que resistiu ao tempo

Colhidos de surpresa pela morte do Rev. Oadi Salum à véspera do fechamento da última edição, publicamos um sensível, mas breve obituário redigido por seu primogênito Joel. O Brasil Presbiteriano, porém, quis estender aos leitores uma homenagem à memória do saudoso pastor da IPB, emérito professor do SPS e autor da Cultura Cristã.

Há filmes que ultrapassam o próprio enredo e se tornam verdadeiras parábolas sobre o tempo e a condição humana − quase como aquelas histórias simples que, uma vez ouvidas, permanecem alojadas no coração e voltam a falar conosco em dias inesperados.

Um Homem Difícil de Matar (Monte Walsh, 1970), estrelado por Lee Marvin (1924–1987), é um desses raros casos: um faroeste intimista, de tonalidade quase existencial, situado no crepúsculo do Velho Oeste, em que um homem envelhecido contempla, em silenciosa lucidez, o desaparecimento de tudo aquilo que um dia deu sentido à sua vida.

Não se trata de um filme de feitos grandiosos, mas de uma narrativa recolhida, quase em tom de confissão. Fala do desgaste, da memória, da perda − e, sobretudo, da dignidade de quem atravessa o tempo sem trair a própria alma. O protagonista percebe, pouco a pouco, que o mundo que conhecia já não existe − e que, com ele, também se esvai um modo de ser e de viver. Ainda assim, permanece. Resiste com mansidão firme, com integridade indomável, quase como um forasteiro − alguém que já não pertence inteiramente a lugar algum, senão àquilo que é. E nisso conserva a sua verdade.

Foi inevitável lembrar-me desse tom quieto e grave na visita que fiz a 28 de maio de 2026, ao meu antigo professor − agora com 95 anos −, o último ainda vivo entre aqueles que moldaram decisivamente a minha formação. Seu corpo já trazia os sinais do tempo, como um campo antigo que conheceu muitas estações. Mas sua mente permanecia clara, e sua alma, doce e piedosa, guardava aquela mesma serenidade − e, por vezes, o mesmo modo enfático − com que outrora nos instruíra.

E havia, ainda, o seu humor − vivo, intacto, quase como um lampejo de juventude preservado pela graça. Recordamos suas exclamações vigorosas, lançadas à beira do campo de futebol, com voz firme e inesquecível: “Levanta, que vem mais!”; “Que que é isso, companheiro?”; e aquela que se tornou antológica, dita com autoridade e graça: “Que que é isso, Petreca?”. Palavras simples, é verdade, mas carregadas de proximidade, amizade e uma descontração tão humana quanto formadora. Em muitos casos, ensinavam tanto quanto uma aula − e, às vezes, até mais.

O mais notável, porém, não foi apenas encontrá-lo vivo, mas reconhecer nele a mesma coerência de sempre: a mesma firmeza de pensamento, a mesma sobriedade de juízo, a mesma integridade serena que eu conhecia desde 1976, quando tive o privilégio de ser aluno de sua primeira turma no Seminário Presbiteriano do Sul. Como o personagem Monte Walsh do filme − e como tantos servos de Deus nas Escrituras  −, Oadi permanecia sendo quem sempre fora. Não se curvou ao tempo, nem diluiu a própria identidade nas mudanças. Antes, guardou o bom depósito.

Homens assim não morrem − ao menos, não no sentido que mais importa. Eles permanecem. São como antigas colunas que sustentam silenciosamente o edifício, mesmo quando já não se fala nelas. Sua vida se torna testemunho: de fidelidade, de coragem, de perseverança.

Seu ministério, longo e fecundo, deixou marcas em Goiás, em Minas Gerais, em Indaiatuba e, de modo muito especial, em Campinas, onde ainda residia quando o visitei, cercado pelo cuidado atento e amoroso de sua filha caçula, a Dra. Suzana Pacheco Salum, médica cardiologista. Ali foram 39 anos ininterruptos no SPS − quase quatro décadas semeando, ensinando, formando. E quem semeia assim raramente mede a própria colheita.

Pois, ainda que talvez nunca tenha dimensionado plenamente a extensão do que plantou, ele deixou uma descendência incontável − filhos, netos e bisnetos espirituais espalhados, de modo muito particular, pela Igreja Presbiteriana do Brasil. Vidas moldadas por suas mãos, consciências formadas por sua palavra, ministérios sustentados por aquilo que dele receberam. Entre esses, com humilde gratidão e também com certo senso de inadequação, conto-me eu.

Damos, portanto, graças a Deus pela vida do meu mestre − vida que refletiu, com beleza simples e firme, o cuidado, a bondade e a misericórdia do Senhor. Uma vida que não buscou brilho, mas verdade; não buscou aplauso, mas fidelidade.

O Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa é membro do CECEP e Coordenador Acadêmico do JMC

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