Estêvão responde seus acusadores, não ponto por ponto, mas em estilo narrativo. A sequência histórica é: Abraão, José, Moisés e a construção do templo. Em toda a sua narrativa ele tece seus temas refutando as acusações feitas contra si. Eis os temas:
a. Deus – Estêvão inicia seu discurso com as palavras o Deus da glória. Mostra que Deus chamou Abraão, esteve com José, comissionou Moisés, abençoou os israelitas com os Dez Mandamentos e concedeu favor a Davi. À medida que desenvolve seu tema, ele demonstra seu amor e profunda reverência por Deus. Logo, não tem base a acusação de que tenha blasfemado contra ele.
b. Adoração – Abraão adorou a Deus na Mesopotâmia, em Harã e em Canaã. José serviu a Deus no Egito, assim como Moisés também o serviu nesse lugar. O culto não está restrito a um lugar ou edificação específicos, pois o povo de Deus o adorou em vários locais e durante séculos, mesmo sem um edifício. E quando o tabernáculo foi construído, ele não ficou fincado em caráter permanente, nem no deserto, nem tampouco em Israel. Estêvão conclui que nem mesmo o templo pode conter Deus. Portanto, ele apresenta uma visão compreensível de culto que anula a acusação de seus opositores de que ele falara contra o templo.
c. Lei – Estêvão dedica a maior parte de seu discurso a Moisés e relata como ele recebeu a lei no Monte Sinai. Ele mostra que Deus deseja obediência à sua lei, mas que os israelitas se recusaram a obedecer à sua Palavra. Além disso, quando o Senhor enviou profetas a Israel levando profecias concernentes ao Messias, eles os perseguiram, chegando mesmo a matá-los. Não foi Estêvão, capaz de pregar habilmente a Palavra de Deus, aquele que rejeitou a lei, mas os judeus.
d. Aliança – Deus fez uma aliança com Abraão e com seus descendentes espirituais. O Senhor honrou a promessa feita a Abraão dando descendentes ao patriarca e a Terra Prometida à nação de Israel. Os israelitas falharam em cumprir a sua parte do pacto quando se recusaram a obedecer à Palavra de Deus. Por semelhante modo, os contemporâneos de Estêvão tinham o coração e os ouvidos incircuncisos, bem como resistiam ao Espírito Santo. Para eles, a aliança de Deus se tornara sem sentido.
e. Jesus – Apesar de Estêvão nunca mencionar Jesus, mesmo assim ele traça paralelos inconfundíveis entre Moisés e Cristo. Emprega expressões que falam da pessoa e da obra do Messias: o governante e libertador (v.35), o Profeta (v.37) e o Justo (v.52). À semelhança de José e Moisés que foram rejeitados por sua própria gente, assim também Jesus foi recusado pelos judeus. Assim como os judeus assassinaram os profetas, do mesmo modo traíram e mataram Jesus.
Estêvão termina seu discurso lembrando seus ouvintes que eles receberam a lei, mas se recusaram a obedecer a ela. As palavras parecem repetitivas e, portanto, supérfluas. Poderíamos esperar que Estêvão exortasse seu público a crer em Cristo. Mas não foi assim. Como John Albert Bengel acertadamente comenta: “quem crê [em] Cristo estabelece a lei; quem coloca Cristo de lado, coloca de lado a lei”. Em suma, segundo os judeus, qualquer pessoa que quebrar a lei é posta no mesmo nível do gentio.

Comentário do Novo Testamento: Atos – volume 1, de Simon Kistemaker, Cultura Cristã.