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Blog Cultura Cristã

Uma intervenção sobrenatural de Deus na vida do homem

“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos” (1Pe 1.3)

Pedro aqui bendiz a Deus pela regeneração operada nos cristãos,[1] entre os quais ele se inclui (“nos regenerou”, 1.3).[2] Deus, de fato, é digno de louvor, pois a regeneração mencionada por Pedro é efetuada por ele, de maneira soberana e poderosa, sem qualquer mérito humano. Caso o homem participasse da sua própria regeneração, deveria também receber a glória. Porém, não é o caso; Pedro atribui a Deus todo louvor. Aqui Deus é qualificado como “o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo”, provavelmente pelo fato de que é a obra de Cristo que torna possível esta regeneração. Ele já havia mencionado que Deus é Pai (1.2) e agora explicita que esta paternidade é, primordialmente, em relação ao nosso Senhor, que é Jesus Cristo, o Filho de Deus.

A regeneração da qual Deus é digno de louvor é o mesmo novo nascimento mencionado no Evangelho de João, nas palavras de Jesus ao mestre judeu Nicodemus: “Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (Jo 3.3; cf. 3.7). A palavra significa “gerar outra vez” (cf. “nos gerou de novo”, ARC), uma referência à geração espiritual efetuada por Deus naqueles que já foram, primeiramente, por natureza, gerados da carne (cf. Jo 1.12-13; 3.6). Trata-se de uma mudança completa da mentalidade de alguém, de tal forma que ele passa a viver uma nova vida, de conformidade com a vontade de Deus (cf. “nos deu uma nova vida”, NTLH). Esta regeneração, segundo Pedro, foi efetuada em seus leitores mediante a palavra de Deus que lhes foi evangelizada. Ela aconteceu quando seus leitores ouviram o evangelho pregado a eles e receberam esta palavra com os corações abertos e preparados, como a boa terra que recebe uma semente (cf. 1.23-24). Porque eles foram regenerados pela palavra de Deus, Pedro os chama de “crianças recém-nascidas”, que deveriam continuar a desejar a palavra de Deus para sua alimentação e sustento (2.1-2). Esta obra – a regeneração – é uma intervenção sobrenatural de Deus na vida do homem. Um milagre, de fato. Por isto, Deus deve ser louvado (“bendito”).

Essa regeneração foi efetuada “segundo a sua muita misericórdia”, isto é, de Deus. A misericórdia de Deus é sua boa disposição e favor para com pecadores, que dele nada merecem a não ser a sua justa ira por causa de seus pecados. Aqui ela é qualificada como “muita” pelo fato de Deus ter regenerado pecadores dignos de castigo e condenação.[3] Esse foi um ato de extraordinário favor e compaixão imerecidos, uma vez que a regeneração acarreta a aceitação plena da parte de Deus e o perdão completo dos pecados e da culpa dos que foram por ele regenerados.

A grandiosidade dessa misericórdia fica mais evidente ainda quando o apóstolo aponta para o objetivo da regeneração, aquilo que ele chama de “uma viva esperança” (1.3). Esta esperança é qualificada no verso seguinte como “uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível, reservada nos céus para vós outros” (1.4). O fato de que Deus regenera espiritualmente membros da raça humana decaída e rebelde para que tenham a viva esperança da vida eterna é, sem dúvida, causa suficiente para que o bendigamos por sua muita misericórdia.

Essa “viva esperança” é a certeza confiante e ativa de que Deus haverá de cumprir suas promessas de vida eterna.[4] Ela está associada à “ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos”, a qual é a base desta esperança (cf. 1.21). Havia entre os judeus da época de Jesus a esperança da ressurreição dos mortos (At 23.6). Entretanto, foi sua própria ressurreição que trouxe um avivamento desta esperança (A. T. Robertson). Os próprios discípulos de Jesus tiveram dificuldade em entender isto a princípio, como o próprio Pedro (cf. Mc 16.9-14; Jo 20.9; Lc 9.44-45; 24.25-27). Uma vez que entenderam todas as implicações da ressurreição de Jesus, passaram a ter esta “viva esperança”. A ressurreição de Jesus foi o tema central do primeiro sermão de Pedro após o Pentecostes (cf. At 2.24,31-32) bem como dos demais sermões dele registrados no livro de Atos (cf. At 3.15,26; 4.10; 5.30; 10.40-41). Aqui nesta carta, Pedro diz a seus leitores que eles deveriam estar sempre prontos para dar a causa da sua esperança se indagados pelos descrentes (3.15) e descreve a nossa vida aqui neste mundo como uma espera viva e constante pelo dia da vinda do Senhor Jesus Cristo e pelos novos céus e terra (1.13; 2Pe 3.12-14).

“Viva esperança” certamente é uma expressão que descreve com exatidão o cerne da vida cristã deste lado da eternidade. Foi para termos esta esperança que Deus, misericordiosamente, nos regenerou. E é ela que nos sustenta durante os tempos difíceis de provações e perseguições. “Um filho de Deus não tem o direito de olhar para o lado negro das coisas, e ficar esperando que o pior sempre vá acontecer com ele. Como objeto do cuidado de Deus e de seu amor, ele tem o direito de esperar sempre o melhor e constantemente olhar para o lado positivo das coisas” (K. S. Wuest).

Trecho do livro Interpretando o Novo Testamento – 1Pedro, de Augustus Nicodemus Lopes © Editora Cultura Cristã.

O Rev. Augustus Nicodemus Gomes Lopes é pastor auxiliar da Primeira Igreja Presbiteriana do Recife e o Vice-presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil.


[1] “Bendito”, euvloghto,j, alguém de quem se fala bem. Bendizer é falar bem, elogiar e quando se refere a Deus, a ideia é de louvor e adoração. Na literatura petrina e nos discursos de Pedro em Atos esta é a única ocorrência do termo, o qual por sua vez é comum nos escritos de Paulo, 2Coríntios 1.3; Efésios 1.3; etc. A expressão “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo” aparece exatamente da mesma forma em Efésios 1.3; 2Coríntios 1.3.

[2] Alguns poucos manuscritos trocam “nos regenerou”, h`ma/j, por “vos regenerou”, u`ma/j. A decisão é difícil, pois mais adiante a mesma troca acontece, só que ao contrário, 1.4. A maioria das versões, todavia, seguem “nos” (1.3) e “vós outros” (1.4).

[3] Outras versões trazem “grande”, como ARC, NVI, NTLH, que provavelmente traduz melhor o sentido de polu. aqui.

[4] “Esperança”, evlpi,j, geralmente usada pelos autores do Novo Testamento para descrever a expectativa confiante e cheia de alegria quanto à vida eterna, cf. Atos 23.6; 26.7; Romanos 5.4ss; 12.12; etc. A nuance de incerteza que o termo carrega em português está ausente do seu uso no Novo Testamento, de forma que pode ser entendido como “certeza”. “Viva esperança” – Pedro emprega o adjetivo “vivo” (zw/san) outras vezes nesta carta: a palavra de Deus é “viva” (1.23) e os crentes são “pedras vivas” (2.4-5). A ideia é sempre de atividade, operação, em contraste com algo morto, inútil e inoperante.

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