fbpx
Blog Cultura Cristã

Resenha: O Deus que se revela

SCHAEFFER, Francis A. O Deus que se revela. São Paulo: Cultura Cristã, 2002. 143 p. Tradução de Gabriele Greggersen do título ori- ginal He is there and He is not silent.

Francis August Schaeffer (1912-1984) dispensa apresentações ao cenário protestante mundial. É comumente sabido que ele foi um ministro presbiteriano com uma habilidade incomum de comunicar a mensagem do evangelho de uma maneira cativante e profunda, foi o fundador e diretor da Comunidade L’Abri, em Huénoz, Suíça, e é considerado um dos maio- res pensadores reformados de todos os tempos. A influência do ministério apologético de Schaeffer sobre o evangelicalismo contemporâneo só é superada por seu contemporâneo C. S. Lewis (1898-1963). Schaeffer tem sido descrito como filósofo, intelectual, apologeta, profeta, pastor e mestre. Ele, porém, preferia ser identificado como um evangelista, pois por meio de seu ministério multifacetado cria estar apenas apresentando as verdades do evangelho ao homem contemporâneo. Em todo o mundo é possível encontrar não apenas os fãs de seus escritos, como também seus discípulos, aqueles que, uma vez positivamente afetados pelos ensinos de Schaeffer, agora propagam os princípios que receberam. A familiaridade do protestantismo brasileiro com os escritos de Schaeffer teve início com a publicação de importantes obras, como A morte da razão (ABU, hoje editada pela Cultura Cristã), O Deus que intervém (Refúgio, hoje editada pela Cultura Cristã) e Verdadeira espiritualidade (Cultura Cristã).

Com o lançamento do livro O Deus que se revela, juntamente com a reedição de O Deus que intervém e A morte da razão, a Editora Cultura Cristã presenteia o cristianismo brasileiro com a trilogia da perspectiva cristã de Schaeffer sobre a filosofia e a cultura. O conteúdo desses livros revela o fundamento das demais obras do pensador. No livro O Deus que intervém, Schaeffer mostra como o pensamento moderno abandonou o conceito de verdade, bem como os efeitos desse abandono em todas as áreas da cultura – filosofia, artes, música, teologia e sociedade como um todo. O pequeno glossário ao final da obra é de grande auxílio para quem ainda não está familiarizado com a terminologia utilizada pelo autor. Já no livro A morte da razão (que, embora tenha sido o primeiro a ser publicado, de- veria ocupar o segundo lugar na trilogia), Schaeffer mostra o processo de origem e expansão da cultura contemporânea em sua busca desesperada pela verdade ou pela sua supressão. Completando a trilogia, o livro O Deus que se revela expõe os fundamentos da cosmovisão cristã acerca da filosofia e da cultura, ou seja, a existência de Deus e de sua iniciativa em comunicar-se com o ser humano. Essa obra é o cerne da argumentação de Schaeffer sobre a verdade da revelação e a compreensão bíblica da vida.

Segundo o próprio autor, o livro O Deus que se revela “trata de uma das mais fundamentais questões de todos os tempos: como alcançamos o conhecimento e como sabemos que conhecemos” (p. 37). A tese de Schaeffer é que o “Deus pessoal e infinito existe, mas ele não se cala”, ou seja, “ele existe e não está em silêncio” (do título original He is there and He is not silent). Assim, o livro trata da necessidade filosófica de Deus existir e de não estar em silêncio a partir de uma análise dos campos da metafísica, da moral e da epistemologia. A verificação desses campos forma a estrutura do livro em seus quatro capítulos e dois apêndices.

O primeiro capítulo do livro aborda a necessidade metafísica da existência de Deus. Partindo da pressuposição de que “nenhum ponto finito faz qualquer sentido, se não tiver um ponto de referência infinito” (p. 40), Schaeffer rejeita as perspectivas behaviorista, determinista e existencialista da vida humana, pois ninguém pode sustentar com coerência que tudo seja impessoal e caótico (p. 43). “Somente um Deus infinito e pessoal é suficientemente grandioso” para atribuir significado e coerência à existência. Logo, “sem o Deus pessoal e infinito, o Deus da unidade e diversidade pessoal, não há resposta para a existência do que existe” (p. 57).

No segundo capítulo, Schaeffer aborda o campo da moral, ou seja, o dilema de o homem possuir “hombridade” que o distingue do não-humano e do impessoal e, mesmo assim, ser finito e não possuir um ponto de convergência em si mesmo. Schaeffer aborda o dilema humano expresso em sua nobreza e crueldade, o que ele chama de “o estranhamento do homem de si mesmo e de outros seres humanos no aspecto da moral” (p. 60). Após analisar as diversas opções apresentadas ao dilema moral, Schaeffer conclui: “no campo da moral, não temos nenhuma destas respostas, a não ser que partamos de uma verdadeira, espaço-temporal, histórica Queda (sic.)” (p. 73). Ele ainda enfatiza: “existiu um período anterior à queda, e então, o homem desviou-se do seu ponto de integração apropriado, por sua escolha; e assim procedendo, houve descontinuidade moral – o homem tornou- se anormal” (p. 73).

No terceiro e quarto capítulos, Schaeffer divide sua abordagem da questão epistemológica em duas partes: o problema (capítulo 3) e a res- posta (capítulo 4). Assim, ele dedica os dois últimos capítulos de sua obra a esse assunto. Schaeffer parte da pressuposição de que a epistemologia é o problema central de nossa geração, ou seja, a maneira como a geração atual olha para o conhecimento de uma forma radicalmente diferente das anteriores (p. 75). O grande problema epistemológico da geração atual é a atribuição de autonomia aos particulares em detrimento dos universais. Como resultado, temos não apenas o relativismo, mas também o reconstrucionismo/desconstrucionismo da verdade ou, na terminologia de Schaeffer, “a natureza está tragando a graça” (p. 79). As implicações dessa absorção dos universais pelos particulares são o caos ou a incoerência moral, bem como o desespero na área do conhecimento. A solução ao problema epistemológico, segundo Schaeffer, encontra-se na cosmovisão cristã. A revelação do Deus pessoal, infinito e triúno concede significado e sentido à existência. O posicionamento do cristianismo histórico não apresenta o problema entre a natureza e a graça, pois este se baseia na revelação assertiva de Deus nas Escrituras e “Deus falando confere a unidade necessária ao dilema da natureza e graça” (p. 100). A importância da cosmovisão cristã pode ser vista em três aspectos: (1) ela confere a certeza da existência de uma realidade objetiva a ser conhecida; (2) ela confere motivação para o conhecimento e o relacionamento com o outro, o próximo; e (3) ela torna possível a distinção entre realidade e fantasias e imaginação. Assim, “sob a unidade da máxima cristã de um Deus pessoal infinito, podemos encontrar sentido, realidade e beleza em todas as áreas” (p. 127).

Além dos assuntos abordados nos capítulos, o livro ainda oferece a opinião de Schaeffer sobre dois importantíssimos temas, na forma de apêndices: a questão da revelação proposicional e a crendice versus a fé. A leitura do livro é agradável e proveitosa. Há, porém, algumas impropriedades de tradução e gramática que sugiro sejam consideradas nas edições posteriores. Por exemplo, a palavra worldview foi traduzida como “visão de mundo”, quando “cosmovisão” é o termo filosoficamente empregado, sendo mais abrangente do que apenas uma perspectiva do universo externo. Isso, entretanto, não ofusca o brilho da obra, e a comunidade cristã no Brasil será certamente beneficiada com essa publicação.

Publicado originalmente na Revista Fides Reformata VII nº1, (2003): 159-162

Siga-nos

Acompanhe nossos perfis oficiais!