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Blog Cultura Cristã

O sofrimento fornece benefícios significativos

O melhor modo de ilustrar que o sofrimento fornece benefícios significativos e que não deve se resistir a ele é compartilhar dois capítulos penosos de minha vida. Houve muitos outros, mas esses dois foram especialmente significativos para me dar uma paixão por ministrar a pessoas sofredoras no que geralmente nos referimos como missões.

Quanto eu tinha 5 anos, minha mãe chamou-me ao quarto dela e me disse que meu herói, o homem com que eu queria crescer e a quem eu queria imitar em tudo, o homem em quem todos os meus sonhos e aspirações se centralizavam, não voltaria nunca mais a viver conosco. Era meu pai, e eu me lembro de ter pensado que ele havia prometido que me ensinaria a voar; ele me prometeu isso. Como poderia ele nos deixar? Então, mamãe disse que ele havia partido para morar com Jesus; aí eu pensei: “Então… isso é algo que todos nós desejamos; mas eu não podia entender por que ele não viera para nos levar com ele; por que nos deixara para trás”.

Aquele último Natal que meu pai estivera em casa conosco tinha sido maravilhoso e me lembro de ter sentido grande sensação de expectativa. Na verdade, o Dia do Natal tinha acabado de passar e suas recordações estavam ainda muito vívidas na minha mente. Então pensei que fôssemos ter outra festa de Natal porque nossos amigos – os Elliots, os McCullys, os Youderians – vinham para a nossa casa. Achei que isso seria realmente bom; vamos continuar a festejar. Mas eu não entendia que toda aquela agitação era por uma razão diferente: meu pai e seus quatro amigos estavam prestes a tentar contatar uma tribo de pessoas violentas na selva antes que uma companhia de petróleo se instalasse ali. A tribo havia tentado defender seu território matando os funcionários da indústria petrolífera. Então, a empresa abordou o governo, explicando que se o país precisava de petróleo, seria bom que eles tratassem de se livrar daquele “problema”.

Apocalipse 5.9 diz que no fim dos tempos membros de todas as tribos, nações e línguas estarão na presença de Deus e que Deus fará deles um sacerdócio real. Estes teriam de ser crentes. Meu pai e seus amigos entendiam isso e se sentiam compelidos a contatar essas pessoas antes que a companhia de petróleo se encarregasse da solução de seu problema. Mas não foi uma compulsão temerária; tratava-se de algo que sentiam prazer em fazer.

Meu pai e seus amigos sabiam que não poderiam simplesmente entrar na floresta e encontrar essas pessoas; outros tinham tentado fazer isso e falharam, até mesmo as companhias de petróleo. Essa tribo havia matado todos os que se aventuravam a entrar em seu território. O que meu pai e seus amigos não sabiam é que a tribo habitual e ferozmente matava seus próprios membros. A taxa de homicídios dentro da tribo era a maior que os antropólogos jamais haviam encontrado. Mais de 60% de toda a população da tribo tinha morrido em consequência de haver sido atingido por uma lança ou picado em pedaços com uma faca de mato por membros de sua própria tribo. Não conheço nenhuma pessoa na tribo, que tenha minha idade, cujo pai tenha morrido de causas naturais.

Meu pai e seus amigos sabiam que uma maneira universal de mostrar amizade é trocar presentes. Embora não soubessem como poderiam trocar presentes com os waodani, sabiam que dar presentes a eles seria uma maneira de demonstrar que eram benquistos. Meu pai havia projetado um modo de voar em círculos fechados de maneira que, do avião, poderiam pendurar uma cesta amarrada a uma corda que ficaria suspensa quase sem movimento bem perto do chão. Usaram esse sistema para dar presentes úteis à tribo. Depois de tentar por umas três vezes, os waodani não apenas retiraram os presentes da cesta como também colocaram outros presentes de volta. Continuaram a trocar presentes desse modo durante 13 semanas.

Meu pai, então, encontrou um pequeno banco de areia não muito longe da aldeia. Aterrissaram ali e esperaram que as pessoas viessem. Terça-feira, quarta, quinta. De repente, na sexta-feira, depois de vários dias de espera sem que nada acontecesse – o avião preparado no banco de areia perto de uma pequena cabana construída na árvore para onde poderiam correr em caso de serem atacados –, eles ouviram vozes vindo do outro lado do rio. Duas mulheres e um homem saíram da floresta e atravessaram o rio pequeno e raso. Passaram o dia com meu pai e seus amigos como se estivesse tudo bem. Temos um vídeo do filme que foi rodado e fotografias que foram tiradas naquele dia. Nós o chamamos de “Sexta-feira amigável”. Tudo parecia tão promissor! Papai telefonou para minha mãe e lhe contou o que havia acontecido, e a história correu entre as cinco esposas. Sabíamos que algo importante estava ocorrendo.

No sábado, meu pai voou sobre a pequena aldeia para ver por que o homem e as mulheres não tinham voltado, mas não havia ninguém lá. Quando voava de volta desde o rio Domointado, depois de cruzar o rio Tewaeno e a seguir o rio Awanguno, onde deixavam o avião, ele olhou para baixo e viu toda uma delegação de pessoas nuas caminhando pela trilha. Assim, ligou para minha mãe e lhe contou as novidades: “Parece que eles estarão conosco para o culto da noite”. Meu pai, então, aterrissou e disse aos outros: “Eles estão vindo pela trilha”. Uma vez que já tinham feito um contato amigável direto, todos estavam excitados com o encontro.

Três mulheres saíram da floresta, na parte da nascente do rio. Jim e Pete começaram a andar na direção delas, enquanto meu pai, Roger e Ed permaneciam atrás, pois não queriam assustá-las. Repentinamente, membros da tribo saíram correndo da floresta – Gikita com Mincaye, Kimo e Dyuwi logo atrás, e Nimongo e Nampa um pouco à frente –, eles posicionaram-se para separar meu pai de seus amigos. Então, Gikita avançou para meu pai dizendo: “Vou atingir o mais velho primeiro”. (Meu pai era a pessoa que eles reconheceram do avião.) Um por um eles atingiram com a lança, meu pai e seus amigos, e os retalharam, e, então, fizeram algo ainda pior pelos seus padrões culturais – pegaram o que havia sobrado dos corpos e jogaram no rio para serem comidos pelos peixes e tartarugas.

Não soube dos detalhes enquanto era pequeno, mas posso lhes dizer que a morte deles ainda esmaga meu coração. O incidente reestruturou minhas crenças de uma maneira que eu não poderia antecipar. Antes dele eu cria no que muitos de vocês provavelmente também creem: quando coisas más acontecem, Deus simplesmente as permite. Descobri os detalhes a respeito da morte de meu pai depois que a minha tia Raquel morreu. Durante todos os anos em que ela viveu com a tribo, a morte do seu irmão e dos outros nunca foi discutida; ela não queria que eles pensassem que ela vingaria aquelas mortes. Quando tia Raquel morreu, representei a família no seu enterro, e foi então que muitas respostas vieram à tona. Como a tia Raquel se fora, a tribo sentiu-se livre para falar sobre os acontecimentos que haviam levado àqueles assassinatos e o conflito “familiar” que precipitou o ataque.

A morte dos cinco missionários martirizados e a impressionante mudança que se operou no povo waodani depois que tia Raquel e Elizabeth Elliot foram convidadas pela tribo para lhes ensinar os “entalhes” de Deus, é hoje uma história bem conhecida. Incontáveis vidas já foram marcadas por ela, milhares de missionários a citam como a razão pela qual seu coração foi tocado para responder ao chamado de Deus. Nossa família tem sido abençoada pelo amor, pela amizade – parentesco – com o povo waodani.

Alguém chegou perto de mim, no lugar onde eu estava falando e disse: “Sabe, se seu pai e os amigos dele tivessem agido de modo diferente, eles não teriam de morrer”. A princípio, senti repulsa por essa sugestão, mas então compreendi que a pessoa estava certa. Eles nem ao menos tinham de ir à floresta. Mas então pensei: se pudesse mudar alguma coisa, não mudaria nada. Simplesmente olhei para o homem que estava em pé ao meu lado, um dos meus mais queridos amigos no mundo inteiro, e compreendi que ele não estaria ali nesse momento se meu pai, Roger, Pete, Ed e Jim não tivessem morrido. Nós o chamamos de vovô Mincaye porque ele se tornou um dos membros queridos da nossa família.

Stephen F. Saint

Texto extraído do livro Sofrimento e a soberania de Deus, de John Piper e Justin Taylor, Editora Cultura Cristã.

Stephen F. Saint é fundador do Indigenous People’s Technology and Education Center (I-TEC), Dunnellon, Flórida

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