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Blog Cultura Cristã

O que é cosmovisão

Cosmovisão – ou uma “visão de mundo e vida”, como algumas pessoas dizem – é a estrutura de entendimento que usamos para compreender o mundo. Nossa cosmovisão é o que pressupomos. É a maneira como olhamos a vida, é a nossa interpretação do universo, a orientação para a nossa alma. É o “quadro abrangente de nossas crenças fundamentais sobre as coisas”,[1] ou “o conjunto de dobradiças nas quais os nossos pensamentos e ações do dia a dia giram”.[2]

Idealmente, uma cosmovisão é um quadro bem-fundamentado de crenças e convicções que proporcionam uma perspectiva verdadeira e unificada sobre o significado da existência humana. Ou poderíamos dizer que uma cosmovisão é a história que contamos para responder questões como estas: Por que existe qualquer coisa que seja? Como podemos saber com certeza? Como chegamos aqui e, afinal de contas, por que estamos aqui? Por que as coisas deram tão errado? Há alguma esperança de consertá-las? O que devo fazer com minha vida? Aonde tudo isso irá me levar?

Quer percebamos ou não, todos nós temos crenças fundamentais sobre quem somos, de onde viemos e para onde vamos. É inevitável. Até mesmo as pessoas que nunca param para pensar em sua cosmovisão de modo autorreflexivo vivem de acordo com ela. É tão fundamental para quem somos que nós sequer a notamos. Uma cosmovisão é às vezes comparada com um par de óculos, mas talvez nossos próprios olhos sejam uma analogia melhor. Quando foi a última vez que você reparou que estava olhando? Nós nem pensamos a respeito de ver; nós simplesmente vemos e vemos o tempo todo. Semelhantemente, mesmo se nunca pensarmos sobre nossa cosmovisão, nós ainda vemos tudo por meio dela e assim aplicamos nossa visão das coisas no modo em que vivemos.

Além disso, nossa cosmovisão sempre revela nossos compromissos religiosos fundamentais. Langdon Gilkey escreveu: “Quer queira ou não, o homem, como criatura livre, tem a necessidade de modelar sua vida de acordo com um fim último e de centrar sua vida em alguma forma escolhida de lealdade última e precisa apoiar sua segurança em alguma forma de poder em que confia. O homem (…) inevitavelmente põe as raízes de sua vida em algo supremo.”[3] Até mesmo as pessoas que dizem não acreditar em Deus têm compromissos fundamentais e esses compromissos são refletidos em como fazem seu trabalho escolar, como tratam seus colegas de trabalho, como gastam seu dinheiro e como fazem tudo o mais. Qualquer coisa que seja suprema para nós molda nossa identidade completa. “Como [um homem] imagina em sua alma,” diz a Escritura, “assim ele é” (Pv 23.7).

Logo, nossa cosmovisão é uma das coisas mais importantes sobre nós. G. K. Chersterton provou esse ponto através do uso deste exemplo cotidiano: “Quando uma proprietária considera um inquilino, é importante que saiba sua renda, mas é ainda mais importante que saiba sua filosofia”.[4] Eu mesmo tive essa experiência. Quando eu e minha esposa, Lisa, nos mudamos para a Filadélfia em 1988, nós não tínhamos dinheiro, não tínhamos trabalho e não tínhamos renda. No dia em que visitamos nosso apartamento, outros três casais o visitavam ao mesmo tempo. Mesmo assim, o proprietário nos deu preferência para o aluguel, mesmo sendo quase contra seu melhor juízo. Por quê? Porque ele ouviu que eu iria estudar no Westminster Theological Seminary, então conhecia a nossa cosmovisão. Mesmo não sendo cristão, ele concluiu corretamente que encontraríamos empregos, trabalharíamos arduamente e pagaríamos nosso aluguel a tempo.

É tremendamente importante para cristãos terem uma cosmovisão cristã verdadeira e completa – não só quando estão procurando por apartamentos, mas o tempo inteiro. Nós nos vemos e vemos o mundo ao nosso redor da mesma maneira que Deus nos vê ou estamos vendo as coisas por meio de uma outra perspectiva? Essa é uma pergunta crucial para fazermos sobre qualquer cosmovisão. O nosso modo de ver o mundo corresponde ao modo como o mundo realmente é? Vemos o mundo como ele é de acordo com Deus?

Nestes tempos pós-modernos, muitos afirmam que a realidade é maleável, que o universo irá se ajustar ao nosso modo de ver as coisas, que há tantos mundos quantas cosmovisões há. Porém, esse não é o caso, o que descobrimos assim que tentamos impor nossas opiniões sobre outras pessoas, ou quando as dificuldades do cotidiano golpeiam as arestas da nossa cosmovisão particular. A pessoa que diz que todos devem ter completa e total liberdade e a pessoa que diz que todos precisam de pelo menos alguma restrição moral e social não podem ambas estar certas; algo tem que ceder.

A única cosmovisão que corresponde inteiramente ao mundo como Deus o conhece é a cosmovisão cristã completa e consistente. A cosmovisão cristã nos ajuda a entender:

  • O modo como Deus Todo-Poderoso criou o mundo e tudo que nele há, incluindo as pessoas que ele criou à sua própria imagem (Criação);
  • Como nos afastamos de nosso Criador, escolhendo viver para nós mesmos em vez de viver para sua glória, assim ficando sob a maldição de um mundo pecaminoso (Queda);
  • Como Deus salva seu povo do pecado e da morte por meio da crucificação e da ressurreição de seu Filho (Graça); e
  • A preeminência de Jesus Cristo no presente e no futuro sobre o reino eterno de Deus (Glória);

Uma vez que compreendemos essa explicação da nossa existência composta por quatro partes, podemos aplicá-la em qualquer área da vida. Ao fazê-lo, podemos ganhar a perspectiva de Deus sobre o porquê, para começar, qualquer coisa em particular foi criada (Criação), o que deu errado com ela (Queda), como podemos começar a encontrar sua recuperação em Cristo Jesus (Graça) e como ela será no final de tudo (Glória).

Infelizmente, é duvidoso que a maioria dos cristãos tenha um entendimento claro da cosmovisão cristã que lhes pertence mediante a graça. Considere o que as pesquisas populares revelam sobre nosso modo de viver. Repetidamente, para o nosso desânimo, ouvimos que cristãos vivem basicamente do mesmo jeito que todo mundo. Temos a mesma incidência de violência doméstica, a mesma taxa de divórcio, o mesmo padrão egoísta de gastos e os mesmos comportamentos viciantes adquiridos pelo resto da população. Como isso pode ser verdade?

Quando sondamos um pouco mais profundamente, descobrimos que cristãos que estão de pleno acordo com alguns dos princípios primordiais que fundamentam a cosmovisão cristã na realidade vivem sim em uma maneira distintamente cristã. Entretanto, aqui está o problema: de acordo com uma influente pesquisa, somente nove por cento de todos os cristãos adultos nascidos de novo e só dois por cento de adolescentes cristãos nascidos de novo realmente defendem esses princípios.[5] É uma surpresa, então, que pessoas que se chamam de cristãos vivam de maneira ímpia? Um boletim informativo de um ministério de homens relata: “Para cada dez homens em sua igreja, nove terão filhos que deixarão a igreja, oito não acharão seus empregos satisfatórios, seis pagam o mínimo mensal em suas faturas de cartão de crédito, cinco têm um grande problema com a pornografia, quatro irão se divorciar e somente um tem uma cosmovisão bíblica”.[6]

A última estatística é a que explica todas as outras: a maioria dos homens cristãos não têm uma cosmovisão cristã. A razão pela qual a igreja não exerce uma influência transformadora na nossa cultura é que nós não sabemos e não vivemos uma cosmovisão baseada na Bíblia, cristocêntrica, com o poder do Espírito, que glorifica a Deus e que nos pertence pela graça.

Ter a cosmovisão correta faz toda a diferença no mundo e toda a diferença para a eternidade. Ela nos ajuda a compreender o propósito para o qual Deus criou o mundo e tudo que há nele. Ela nos dá uma perspectiva verdadeira nas nossas dificuldades cotidianas e nas aflições da vida em um mundo caído. Ela nos oferece esperança de uma realidade futura que molda tudo em nossa existência presente, até o dia em que Jesus voltará em triunfo e dirá, “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21.5).

Philip Graham Ryken


Texto adaptado do livro Série Fé Reformada – vol. 2, publicado pela Editora Cultura Cristã. No capítulo “O que é cosmovisão cristã?”, Philip Ryken tem o propósito de ajudar as pessoas a pensarem de maneira cristã sobre seu cotidiano, para isso traçando o contorno abrangente da cosmovisão cristã e esboçando algumas de suas implicações práticas.


[1] WOLTERS, Albert. Creation Regained: Biblical Basics for a Reformational Worldview (Grand Rapids: Eerdmans, 1985), 2. (Publicado no Brasil pela Cultura Cristã com o título A Criação Restaurada: Base Bíblica para uma Cosmovisão Reformada).

[2] James Olthuis, “On Worldviews,” in Stained Glass: Worldviews and Social Science, org. Paul A. Marshall, Sander Griffeioen e Richard J.Mouw, Christian Studies Today (Landham, MD: University Press of America, 1989), 29.

[3] Langdon Gilkey, Maker of Heaven and Earth: A Study of the ChristianDoctrine of Creation, Christian Faith Series (Garden City, NY: Double-day, 1959), 193.

[4] G. K. Chesterton, Heretics, citado em David K. Naugle, Worldview: The History of a Concept (Grand Rapids: Eerdmans, 2002), xi.

[5] George Barna, Think Like Jesus (Mobile, AL: Integrity, 2003), 23.

[6] Pat Morley documentou essas estatísticas em “The Case for a Men’s Discipleship Program,” A Look in the Mirror, no. 120 (sd): 1-2.

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