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Liberdade humana e responsabilidade

Isso é alimento forte. Digerir essas verdades pode ser muito difícil para nós. Entretanto, mesmo a consideração dessas alegações levanta outras questões. Pois, se essas alegações são verdadeiras, então o que acontece com a liberdade humana? Se tudo o que ocorre, ocorre porque Deus assim o desejou antes do início dos tempos, então como as ações humanas podem ser livres? E se não somos livres, então o que acontece com a noção crucial de responsabilidade humana? Como poderia jamais ser certo louvar ou culpar, premiar ou punir alguém?

Esse é o segundo conjunto de questões para o qual precisamos dirigir nossa atenção. Precisamos investigar como as Escrituras apresentam o relacionamento entre preordenação divina e liberdade humana. Em outras palavras, precisamos pensar sobre como o que Deus quis se relaciona com o que nós queremos. E é necessário determinar o que as Escrituras afirmam sobre a responsabilidade humana.

Os que aceitam o teísmo aberto são o que os filósofos chamam de partidários da doutrina do livre-arbítrio.[1] Essa posição filosófica envolve uma alegação sobre o que seria verdadeiro se os seres humanos devem ser verdadeiramente livres e, portanto, capazes de genuína responsabilidade. Para os partidários da doutrina do livre-arbítrio, a verdadeira liberdade envolve mais do que apenas fazer o que eu escolho fazer. Essa liberdade de escolha, argumenta Robert Kane, é apenas “liberdade superficial”,[2] pois alguém poderia manipular-me de modo que eu sempre escolha o que essa pessoa deseja que eu escolha.[3] A verdadeira liberdade, sustenta Kane e outros partidários da doutrina do livre-arbítrio, exige que uma pessoa não apenas seja capaz de fazer escolhas específicas, mas também que, no momento em que fez sua escolha, ela seja capaz de escolher de modo diferente do que na realidade o fez. Ou seja, eu escolhi livremente tomar um sorvete de chocolate se, ao fazer a escolha deste, e não de um sorvete de passas ao rum, eu pudesse de fato ter escolhido o de passas ao rum. Em outras palavras, você é livre em sua escolha de permanecer sentado, se você pode também escolher levantar-se. Mas se algo tentar impedi-lo de levantar-se (digamos que se alguém sentado ao seu lado o segurasse quando você tentasse se levantar) então, mesmo que (em vez de lutar com esta pessoa) você decidisse permanecer sentado, você não é realmente livre. Para Kane e outros partidários da doutrina do livre-arbítrio, tudo isso significa que devemos possuir o que eles denominam liberdade de vontade – isto é, liberdade para decidir o que desejaremos e assim determinar por nós mesmos quem seremos e, portanto, o que escolheremos – além de liberdade de escolha.[4]

Agora, aqui está o ponto crucial: para os partidários da doutrina do livre-arbítrio não podemos ser considerados responsáveis por aquilo que somos ou fazemos se nossa vontade não é livre nesse sentido indeterminista. Se a explicação final para as escolhas que faço encontra-se fora de mim, então não sou realmente livre, e não posso ser responsabilizado pelo que escolho. E se não posso ser responsabilizado, então não posso ser, com justiça, louvado, ou culpado, ou premiado, ou punido pelo modo como escolho. No nível da vida cotidiana, isso parece fazer sentido. Sabemos que todos os assassinos seriais sofreram abuso sexual quando crianças e, portanto, parece próprio colocar parte da culpa por aquilo que eles se tornaram sobre aqueles que abusaram deles e não apenas sobre os próprios assassinos.[5] É isso que faz parecer necessário aos partidários da doutrina do livre-arbítrio que tenhamos liberdade de vontade se Deus deve ser considerado justo em nos considerar responsáveis pelo que fazemos. E com certeza devemos admitir que, nas Escrituras, Deus realmente nos considera responsáveis pelo que fazemos – leia, por exemplo, Romanos 1.18–3.20. Assim, os partidários da doutrina do livre-arbítrio concluem que devemos possuir liberdade de vontade, o que significa que Deus não pode preordenar o que fazemos.

Para os partidários do teísmo aberto, existe uma dificuldade adicional, por causa da noção que eles têm das exigências para possuirmos essa liberdade inde­terminista. Eles abrangem apenas uma subdivisão dos partidários da doutrina do livre-arbítrio, pois mantêm, enquanto alguns adeptos dessa doutrina não fazem, que, se Deus sabe o que vou escolher, por exemplo, na próxima semana, então o que vou escolher já deve estar determinado de algum modo. Eles afirmam que, se Deus sabe agora que na próxima semana vou escolher sorvete de chocolate em vez de sorvete de passas ao rum, isso significa que a afirmação: “Mark vai escolher sorvete de chocolate em vez de passas ao rum na próxima semana” é verdadeira desde já, o que significa que minha escolha na próxima semana já está determinada. Quando a hora chegar, pode parecer como se eu estivesse livremente escolhendo agir como o faço, mas de fato isso não pode acontecer. Assim, os partidários do teísmo aberto insistem que, se os seres humanos devem ser seres livres e responsáveis, Deus não pode saber de antemão o futuro.[6]

Tudo isso parece ser um arrazoado muito interessante, embora, na realidade, haja muitas respostas possíveis para essa argumentação.[7] Entretanto, agora não estou interessado em argumentar filosoficamente contra os partidários da doutrina do livre-arbítrio ou do teísmo aberto; quero saber o que as Escrituras dizem. E o que encontramos nas Escrituras é o seguinte: as Escrituras afirmam que os seres humanos agem com responsabilidade quando Deus sabe de antemão o que eles escolherão, mesmo quando essas Escrituras afirmam ou inferem que Deus predestinou ou preordenou o que eles escolherão.

Além de alguns versículos que já citei na seção anterior,[8]35 estou pensando aqui, em particular, sobre o que aconteceu durante o sermão de Pedro no Pentecostes. A certa altura, ele declarou: “Varões israelitas, atendei a estas pa­lavras: Jesus, o Nazareno, varão aprovado por Deus diante de vós com milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou por intermédio dele entre vós, como vós mesmos sabeis; sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes crucificando-o por mãos de iníquos” – ou seja, “homens” iníquos, mas, ainda assim, responsáveis (At 2.22-23). Qual foi, então, a reação dos israelitas à acusação de Pedro de que eles haviam sido cúmplices da vontade de Deus na crucificação de Cristo? Alegaram eles que não eram responsáveis apenas porque suas ações já eram conhecidas de Deus com antecedência e faziam parte de seu plano predeterminado – em outras palavras, por que a morte de Cristo, incluindo a própria escolha feita por eles de crucificá-lo nas mãos de homens iníquos fazia parte da ação de Deus operando todas as coisas de acordo com o conselho de sua vontade?[9] Alegaram que não poderiam ser considerados culpados porque Deus sabia com antecedência o que eles escolheriam? Não! Lucas nos diz, alguns versículos depois, que, “ouvindo eles estas coisas [que Deus havia feito do Jesus a quem eles crucificaram, Senhor e Cristo], compungiu-se-lhes o coração”; em outras palavras, eles reconheceram a profundidade de seu erro a respeito do Cristo de Deus – “e perguntaram a Pedro e aos demais apóstolos: Que faremos, irmãos?” E Pedro lhes respondeu: “Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados” (2.37-38a). Nós só precisamos pedir perdão pelo que somos responsáveis.[10] Assim, nas Escrituras, a presciência divina e a responsabilidade humana são tidas como compatíveis.

A seguir, consideremos as palavras do Senhor na Última Ceia. Enquanto seus discípulos participavam com ele de sua última festa da Páscoa, Jesus lhes disse que um deles iria traí-lo. Isso os deixou muito tristes, e eles começaram a perguntar um após o outro: “Porventura, sou eu, Senhor?” Jesus respondeu com as seguintes palavras: “O que mete comigo a mão no prato, esse me trairá. O Filho do Homem vai, como está escrito” – isto é, como fora previamente predito – “a seu respeito, mas ai daquele por intermédio de quem o Filho do Homem está sendo traído! Melhor lhe fora não haver nascido!” (Mt 26.22-24). Porventura isso soa como se o discípulo que haveria de trair Jesus não devesse ser considerado culpado pelo que estava prestes a fazer? Sem dúvida, não! Atos 1.18 qualifica a escolha de Judas de trair Jesus como um ato de iniquidade; e a frase “melhor lhe fora não haver nascido” tem a intenção de comunicar que ele enfrentará um terrível julgamento pelo que fez. Além do mais, somos informados em João 6.64 que “Jesus sabia, desde o princípio […] quem o havia de trair”. Ainda assim, Judas era responsável pela iniquidade que escolheu fazer, como ele mesmo reconheceu (ver Mt 27.4).[11].

Finalmente, consideremos Atos 4.24-28, em que os crentes oram depois de Pedro e João terem sido libertados da prisão na qual estavam por proclamar o Evangelho. Todos lembram da oração que eles fizeram:

Tu, Soberano Senhor, que fizeste o céu, a terra, o mar e tudo o que neles há; que disseste por intermédio do Espírito Santo, por boca de Davi, nosso pai, teu servo:

Por que se enfureceram os gentios, e os povos imaginaram coisas vãs? Le­vantaram-se os reis da terra, e as autoridades ajuntaram-se à uma contra o Senhor e contra o seu Ungido;

[…] verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Ser­vo Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e gente de Israel, para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram.

Conspirar é algo que as pessoas escolhem fazer, e colocar-se contra alguém é outra coisa que os seres humanos escolhem fazer ou não fazer. Aqui, Herodes e Pôncio Pilatos, os gentios e os israelitas, se uniram colocando-se contra Deus e contra Cristo – e realmente não há dúvida de que todos estão sendo acusados pelo que escolheram fazer; em outras palavras, estão sendo considerados responsáveis pelas escolhas que fizeram, muito embora aquilo que tramaram e se dispuseram a fazer seja o que a mão de Deus e seu plano havia predestinado que deveria acontecer.[12] Assim, parece que, nas Escrituras, Deus haver preordenado que algumas escolhas serão feitas não é incompatível com manter aqueles seres humanos responsáveis por aquelas escolhas.

Portanto, não importa o que dizem os partidários da doutrina do livre-arbítrio e os do teísmo aberto, nem a presciência de Deus, nem sua preordenação de todas as coisas, inclusive todos os atos e escolhas humanas, excluem a responsabilidade humana.

Texto extraído do livro Sofrimento e a soberania de Deus, de John Piper e Justin Taylor, Editora Cultura Cristã.

Mark R. Talbot

Mark R. Talbot. Professor associado de Filosofia do Wheaton College, Wheaton College, Wheaton, Illinois


[1] Para prevenir alguma possível confusão, talvez seja importante observar que a doutrina do livre-arbítrio e o livre-arbítrio político são muito diferentes. Além disso, como observei dois parágrafos depois, nem todos os que defendem a doutrina do livre-arbítrio são partidários do teísmo aberto (ou teologia relacional). 

[2] Ver Robert Kane, A Contemporary Introduction to Free Will (Nova York e Oxford: Oxford University Press, 2005), 2. Como Harry Frankfurt salientou, mesmo os animais possuem alguma liberdade de escolha porque “um animal pode se sentir livre para correr em qualquer direção que desejar” (“Freedom of the Will and the Concept of a Person”, in Harry G. Frankfurt, The Importance of What We Care About: Philosophical Essays [Cambridge e Nova York: Cambridge University Press, 1988], 20). 

[3] Por exemplo, algumas vezes vemos pais induzindo seus filhos a não fazer algo, oferecendo-lhes outra coisa diferente que talvez eles desejem ainda mais. Como demonstra Kane, o livro de Aldous Huxley, Brave New World [Admirável Mundo Novo] retrata um mundo em que os cidadãos comuns são deixados livres para escolher o que desejam, mas o que eles desejam está estabelecido e controlado pelo Estado (ver op. cit., 3s.). A doutrina do livre-arbítrio do próprio Kane está mais completamente desenvolvida em seu Significance of Free Will (Nova York e Oxford: Oxford University Press, 1996). 

[4] Segundo Kane, a liberdade de escolha é importante porque nos permite satisfazer nossos desejos. Quando temos liberdade de escolha podemos escolher obter o que desejamos. 

Mas, o livre-arbítrio é mais profundo do que essas liberdades comuns. Para compreender, suponha que tivéssemos a máxima liberdade de fazer escolhas do tipo mencionado, isto é, para satisfazer nossos desejos; ainda assim as escolhas que faríamos seriam, de fato, manipuladas por outros, pelos poderes que existem. Num mundo assim, teríamos uma grande quantidade de liberdade diária de fazer qualquer coisa que desejássemos; entretanto, a nossa liberdade de vontade seria extremamente limitada. Estaríamos livres para agir ou escolher o que desejássemos, mas não teríamos o poder final sobre o que é que desejamos (Contemporary Introduction, 2).

Para os partidários da doutrina do livre-arbítrio como Kane, só seremos verdadeiramente livres se nossas vontades e nossos desejos – o que escolhemos satisfazer ou não – competissem a nós, um mundo onde as “fontes ou origens últimas de nossas ações estivessem […] ‘em nós’ [e não] em algum outro lugar (como decretos do destino, os atos predestinados de Deus, ou causa e leis antecedentes da natureza) que estão fora de nós e além do nosso controle” (6; ênfase minha).  

[5] Ver a obra de Kane, Contemporary Introduction, 4s. Para um relato mais completo de um exemplo da vida real, em que parece que parte da culpa pelo modo como uma pessoa se tornou precisa ser colocada sobre outros, ver o relato feito por Gary Watson da história de Robert Harris em Perspectives on Moral Responsibility, org. por John Martin Fisher e Mark Ravizza (Ithaca e Londres: Cornell 1993), 131-37.

Somente Deus conhece o coração humano; portanto, só ele pode avaliar com justiça quanta culpa cada um de nós merece pelo que fazemos. A culpa sempre cairá, em primeiro lugar, sobre os que perpetraram determinado mal – em outras palavras, os assassinos seriais são essencialmente respon­sáveis pelos seus crimes – e, portanto, os perpetradores são de início culpáveis e condenáveis pelos seus próprios atos (ver Dt 24.16; 2Rs 14.1-6; Is 3.11; Jr 31.30; Gl 6.7). Isso não quer dizer, no entanto, que os pecados de outros não podem ter um efeito negativo sobre nós (ver Êx 20.5; Nm 14.18). Na realidade, os atos e omissões de outros, até onde podem contribuir para o pecado de alguém, pode torná-los culpados e puníveis também (ver Ez 3.16-21; Mt 18.6s.).  

[6] Estritamente falando, o que eles sustentam é que Deus não pode saber nossas futuras escolhas, pelo menos não com certeza. Em geral eles admitem que Deus é muito competente em predizer o que nós muito provavelmente faremos. Ele pode saber com certeza outras verdades, desde que o seu conhecimento dessas verdades não viole nossa capacidade de escolher de modo livre. 

[7] Para os que querem obter uma elaboração filosófica, ver o trabalho de Brian Leftow, Time and Eternity (Ithaca e Londres: Cornell University Press, 1991) e o trabalho de Paul Helm, Eternal God: A Study of God Without Time (Nova York: Oxford University Press, 1988). 

[8] Se nós, seguindo Jesus e os discípulos, assumimos que Deus é o principal autor das Escrituras, então, não apenas podemos, mas devemos ler cada parte dela à luz de todas as outras partes e procurar formular um sentido consistente da Bíblia como um todo. Devemos, além disso, permitir que suas afirmações mais claras e mais abrangentes determinem a interpretação das afirmações menos claras e menos abrangentes. Hebreus 1.13 e Efésios 1.11, propriamente interpretados, são afirmações claras e abrangentes de que nada do que existe ou ocorre escapa da vontade soberana de Deus. Portanto, tomando por base essas duas passagens, afirmo que Deus conhece e ordena com antecedência todos os atos humanos, inclusive aqueles que são relatados nas passagens de Atos, Mateus e João que discutirei a seguir. Consequentemente, a única questão à qual preciso me referir agora é se nas Escrituras os seres humanos serão considerados culpados por esses atos.

Para excelente sumário sobre o que as Escrituras afirmam, assumem e inferem a respeito de si mesmas, ver Grudem, op. cit., 47-138.  

[9] A frase “sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus” – ou na tradução da NVI, “este homem lhes foi entregue pelo propósito determinado e pré-conhecimento de Deus” – sugere que a traição de Judas, a disposição de Caifás de sacrificar Jesus pelo bem do povo (ver Jo 18.14 com 11.45-50) e a covardia de Pilatos em enfrentar os judeus depois que Jesus lhe foi entregue (ver Jo 18.28–19.16) eram todas partes específicas do plano predeterminado de Deus. Muitos anos antes, Senaqueribe havia sido um instrumento involuntário dos grandes propósitos de Deus, como lemos em Isaías 10.6s.: “Envio-a contra uma nação ímpia e contra o povo da minha indignação lhe dou ordens […] e oponha para ser pisado aos pés como lama das ruas. Ela, porém, assim não pensa, o seu coração não entende assim; antes intenta consigo mesma destruir e desarraigar não poucas nações”. Portanto, parece razoável concluir, contra os tipos de argumento que citei dos partidários da doutrina do teísmo aberto nas notas 38 e 39, que esses três homens (com Herodes e outros), falaram e agiram exatamente como Deus havia ordenado (ver, por ex., Jo 11.51-53). 

[10] Embora após o acontecido possa dizer “Sinto muito!”, realmente não preciso pedir desculpas pelos meus arranhões e colisões contra você a não ser que essas colisões tenham sido resultado de minha falta de cuidado. 

[11] Sanders não comenta sobre essas passagens em Mateus e João. Boyd fornece uma interpretação ra­zoavelmente alentada de João 6.64 e de outras passagens desse Evangelho numa tentativa de mostrar (1) que João 6.64 não insinua que Jesus sabia, desde a eternidade que Judas o trairia; (2) que João 17.12 não fornece base para a posição de que “Judas foi condenado desde o início dos tempos”, e (3) que, embora Judas tenha sido aquele que cumpriu as Escrituras traindo a Jesus, ele não tinha de ser aquele que cumpriria esse papel (ver 37-39).

Se admitirmos com base em passagens como Isaías 46.10-11 que Deus possui total pré-conhecimento de todos os acontecimentos futuros, incluindo todas as escolhas humanas, então não há razão por que não deveríamos ler João 6.64 do modo tradicional, uma vez que decerto é possível que o Jesus encarnado, como Deus o Filho, podia e realmente sabia disso durante sua encarnação, assim como ele predisse em Mateus 26.33-35 que antes que o galo cantasse Pedro o negaria três vezes. O segundo e o terceiro pontos de Boyd não serão admitidos por aqueles que interpretam passagens como Hebreus 1.3 e Efésios 1.11 como o faço.

A implausibilidade da explicação de Boyd da predição de Jesus a respeito da negação de Pedro por três vezes antes que o galo cantasse em Mateus 26.33-35 mostra como são fracos alguns dos argumentos dos teólogos adeptos da teologia relacional (teísmo aberto). Boyd argumenta que podemos explicar essa predição “simplesmente supondo que o caráter de uma pessoa, combinado com o perfeito conhecimento do Senhor a respeito de todas as variáveis futuras, torna o comportamento futuro da pessoa como algo certo” (35). Diz ele:

Ao contrário daquilo que muitos assumem, não precisamos crer que o futuro está absolutamente determinado para explicar essa predição. Apenas precisamos crer que Deus o Pai conhecia e revelou a Jesus um aspecto muito previsível do caráter de Pedro. Qualquer pessoa que conhecesse perfeitamente o caráter de Pedro poderia ter predito que, sob certas circunstâncias de alta pressão (que Deus facilmente poderia orquestrar), ele agiria exatamente como o fez (35).

Entretanto, para que Jesus arriscasse fazer uma predição de que Pedro o negaria três vezes antes que a madrugada raiasse (lembrem-se: no Antigo Testamento, um profeta era desacreditado como porta-voz de Deus se todas as suas predições não se mostrassem verdadeiras [ver Dt 18.20s.]), as circunstâncias que Deus teria de orquestrar teriam incluído sua certeza de que Pedro seria confrontado com exatidão três vezes a respeito de suas relações com Jesus. E como Deus poderia assegurar isso sem, pelo menos potencialmente, suprimir a liberdade dos questionadores para assegurar o resultado? 

[12] Em geral, os partidários da doutrina do teísmo aberto como Boyd e Sanders, fazem grande esforço para mostrar como passagens como essas e aquela de Atos 2 podem aceitar uma interpretação “aberta” e, portanto, não apoiam os tipos de afirmação que faço. Portanto, é surpreendente perceber como eles dão tão pouca atenção a essas duas passagens. Boyd simplesmente declara que, conquanto: 

as Escrituras retratem a crucificação como um acontecimento predestinado, ela nunca sugere que os indivíduos que participaram desse evento eram predestinados para fazer isso, ou conhecidos com antecedência como os que o fariam. Era certo que Jesus seria crucificado, mas não era certo desde a eternidade que Piloto (sic), Herodes ou Caifás fariam os papéis que fizeram na crucificação (God of the Possible, 45; ênfase minha).  

Essas são meras alegações que, além disso, parecem não reconhecer a interpretação mais natural da passagem e lançar mão dela. Pois esta afirmação “porque verdadeiramente se juntaram nesta cidade contra o teu santo servo Jesus […] Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e gente de Israel para fazer tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram” é mais naturalmente interpretada como envolvendo o soberano Deus do universo usando aqueles que se juntaram contra Jesus como instrumentos para realizar sua vontade. Isso se segue tanto do fato de que os sujeitos naturais da cláusula final são Herodes e Pôncio Pilatos e os gentios e israelitas, quanto à luz de passagens como Hebreus 1.3 e Efésios 1.11.

Sanders também trata essas duas passagens de maneira breve demais, dizendo que: “Era propósito explícito de Deus […] entregar o Filho nas mãos daqueles que possuíam um longo histórico de re­sistência à obra de Deus” (op. cit., 103). Com isso ele parece reconhecer que Deus tencionava usar Herodes e Pilatos, os gentios e judeus como instrumentos para realizar sua vontade. Mas, então, ele cita Lucas 7.30 – “os fariseus e os intérpretes da lei rejeitaram, quanto a si mesmos, o desígnio de Deus” – como prova de que os seres humanos podem resistir à vontade de Deus. Entretanto, aqui po­demos responder que os fariseus e intérpretes da lei resistiam à vontade revelada de Deus e que nem eles nem ninguém mais podem resistir à sua vontade secreta. Vemos essa distinção funcionando, por exemplo, em 1Samuel 2.12-15 em que os filhos de Eli tratavam com desrespeito a vontade revelada de Deus no que dizia respeito ao sacrifício, mas quando Eli os advertiu sobre o julgamento de Deus por seu mau procedimento, somos informados de que: “não ouviram a voz de seu pai” – que estava sem dúvida proclamando a eles a vontade revelada de Deus – “porque o Senhor os queria matar” (v. 25).  

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