
Para quem acompanha esta editora há alguns anos, talvez já tenha percebido, em certa altura, que arte é um assunto muito sério para mim. Eu me emociono com ela. Inclusive, acho profundamente triste alguém viver sem se permitir emocionar com música, cinema, literatura ou obras de arte. Seja por meio da alegria, do escárnio, da contemplação ou da melancolia, poucas coisas criadas pelo homem me despertam tanta fascinação.
E no cinema existe algo ainda mais especial: quando a sala inteira mergulha em silêncio, compartilhando aquele mesmo instante de impacto coletivo, a sensação é quase avassaladora. Foi exatamente assim que vivi minha sessão de Hamnet: A Vida Antes de Hamlet.
Fui assistir movida pelo hype em torno das indicações ao Oscar e também pelo elenco. Levei meu irmão a tiracolo (e bastante contrariado, diga-se de passagem). Mas o filme o venceu rapidamente. Assim como cerca de 90% da sala, saímos emocionados, literalmente aos prantos.
Talvez isso crie expectativas altas demais em torno do longa. Confesso que demorei alguns meses para escrever sobre ele aqui. Pensei bastante se deveria trazê-lo para esta coluna. Vi diversas personalidades do meio reformado comentando o filme e achei pertinente compartilhar também minha impressão.
Então, vamos aos fatos.
O filme dirigido pela premiada Chloé Zhao não é apenas uma obra sobre William Shakespeare. Na verdade, Shakespeare quase se torna coadjuvante diante daquilo que realmente conduz a narrativa: o sofrimento humano diante da perda.
Inspirado no romance de Maggie O’Farrell, o longa acompanha Agnes e William Shakespeare em um período de luto familiar durante uma epidemia de peste bubônica. A proposta não é historicista ou documental, mas uma reconstrução poética e profundamente emocional da dor de uma família.
A direção de Zhao aposta no silêncio, na contemplação e na beleza melancólica da rotina comum. Há pouca pressa. O filme parece compreender algo que a geração atual frequentemente rejeita: o sofrimento possui peso, duração e profundidade. Não se atravessa o vale da sombra da morte em poucos minutos, infelizmente.
Em uma época marcada pela superficialidade emocional e pela tentativa constante de anestesiar a dor, Hamnet nos confronta com a realidade inevitável da perda. O luto não aparece como um problema a ser “resolvido”, mas como uma experiência humana capaz de transformar profundamente aqueles que sofrem.
Mas é justamente aqui que surge também a principal limitação espiritual do filme.
Embora trate o sofrimento com uma honestidade rara no cinema contemporâneo, Hamnet oferece uma esperança essencialmente estética e emocional. A arte aparece como caminho de redenção. Shakespeare transforma sua dor em Hamlet; Agnes encontra algum consolo na contemplação da memória. Há sensibilidade, mas falta transcendência.
A narrativa aponta corretamente para a realidade da dor, mas não consegue responder plenamente o que fazer com ela.
As Escrituras, porém, caminham além. A Bíblia jamais romantiza o sofrimento. O luto é tratado como consequência amarga da Queda, inimiga real da humanidade. O próprio Cristo chorou diante da morte de Lázaro (Jo 11.35), demonstrando que lágrimas não são ausência de fé, mas expressão legítima do amor em um mundo quebrado.
João Calvino, inclusive, ao comentar sobre sofrimento, nos aponta que ele jamais é vazio. Deus não desperdiça a dor de seus filhos; antes, utiliza até mesmo as aflições para moldar o coração do cristão à imagem de Cristo.
Essa perspectiva oferece um contraste profundo com a narrativa do filme. Em Hamnet, o sofrimento parece encontrar algum alívio apenas na arte e na memória, o que, convenhamos, é poeticamente devastador para quem assiste. Na cosmovisão bíblica, porém, existe algo ainda mais sólido: a soberania de Deus em meio ao sofrimento.
Nenhuma lágrima passa despercebida diante do nosso Pai.
Essa esperança não elimina a tristeza, mas impede que ela seja definitiva.
O cristianismo não oferece respostas frias ou simplistas ao sofrimento. Oferece presença. Oferece redenção. Oferece Cristo.
Em Hamnet, a arte tenta eternizar a memória do ente perdido. No evangelho, porém, a esperança cristã vai além da lembrança: ela aponta para a ressurreição.
Contudo, ao encarar a fragilidade humana sem filtros, Hamnet nos lembra de uma verdade que o mundo moderno tenta esquecer: sofrer faz parte da experiência humana. E diante dessa realidade, a pergunta inevitável permanece: onde encontraremos esperança?
Para nós, cristãos, a resposta não está apenas na arte, na memória ou no tempo. Está naquele que venceu a própria morte.
Gabriela Cesario é jornalista do Brasil Presbiteriano e Coordenadora de Marketing e Eventos da Editora Cultura Cristã