Restaurando princípios e valores nas relações humanas
Os princípios bíblicos de obediência, amor e gratidão fortalecem os laços familiares, preservando a essência de um dos maiores presentes de Deus: a família!
Quando compramos um aparelho, ele vem com um manual do fabricante contendo normas e especificações técnicas, como a voltagem ideal. Se ignorarmos essas orientações, o aparelho não funcionará corretamente e poderá quebrar. Do mesmo modo, a família também tem um “manual de funcionamento” – princípios e valores que emanam da autoridade suprema de Deus.
Antes, é importante compreender quem é esse Deus. Ele não é um autoritário despótico. Ele ama, liberta, salva e propõe uma aliança com um ser humano que, por vezes, se rebela. Mesmo assim, Deus nos conquista, guarda e protege. A ideia de que Deus é tirano por estabelecer limites e princípios é semelhante à reclamação de uma criança que chama os pais de “maus” ao ser disciplinada. E o que você, como pai ou mãe, responde? “Um dia, você vai entender.” Deus também nos diz isso. Ele coloca limites porque nos ama, e esses limites nos protegem do “mau funcionamento” e da quebra. Esse “manual do fabricante” é a Bíblia Sagrada.
Em Deuteronômio 6, vemos que Deus não fala com indivíduos isolados, mas com famílias. Apesar de nossa relação com Deus ser pessoal, ela se desenvolve na coletividade, começando pela família. Marido e esposa têm responsabilidades mútuas, o que chamamos de conjugalidade. Sem isso, a vida familiar vira um conjunto de individualidades, e o extremo individualismo destrói a base familiar.
Também temos responsabilidades com nossos filhos e à medida que eles crescem, começam a assumir responsabilidades conosco, especialmente em nossa velhice. Essa interdependência familiar é chamada de parentalidade. Ninguém está solto no mundo. Para aqueles que, por infelicidade, nascem sem uma estrutura familiar formal, Deus providencia pais e mães de coração ao longo da vida. Muitos de nós lembramos de alguém que foi como um pai ou mãe para nós em algum momento, e esse sentimento não é apenas compaixão humana – é providência divina.
No Novo Testamento, Deus se apresenta como o Pai adotivo perfeito, que transforma criaturas em filhos e filhas por meio de Jesus Cristo. Ele nos insere na “família da fé”. Em Deuteronômio, as famílias são instruídas a olhar para Deus, recebendo princípios e valores que sustentam a vida em comunhão.
Uma das expressões mais poderosas de amor, segundo a Bíblia, é a obediência. O amor não é apenas um sentimento, um arrepio ou uma emoção passageira. Ele é demonstrado por atitudes concretas. Jesus ilustra isso com a parábola dos dois filhos: o pai pede algo, e o primeiro promete fazer, mas não faz; já o segundo, embora inicialmente resista, acaba cumprindo o pedido. Qual deles amou e obedeceu ao pai? O que agiu, e não apenas falou.
Nas relações conjugais, isso se reflete em fidelidade, respeito e cuidado mútuo. O amor se expressa em obediência aos princípios de Deus, que nos ajudam a ser cônjuges e pais melhores. Ignorar esses princípios traz consequências não só para nós, mas também para nossos filhos.
Deus nos motiva à obediência pela gratidão. Ele nos lembra: “Quando vocês chegarem à terra prometida, cheia de bênçãos que vocês não construíram, nem plantaram, nem cavaram, guardem-se para não esquecer do Senhor, que os tirou do Egito, da casa de servidão”. A gratidão fortalece os laços familiares.
Um exemplo pessoal: todas as manhãs, minha esposa me prepara um chá amargo para ajudar na minha saúde. Apesar do gosto desagradável, interpreto isso como uma expressão de amor, e aceito com gratidão. Assim também é o amor nas relações familiares – ele exige ações concretas, sacrifícios e cuidado.
Se lembrarmos de Deus e da transformação que ele fez em nossa vida, seremos gratos. Se reconhecermos o valor das pessoas que convivem conosco, mesmo com suas imperfeições, aproveitaremos melhor nossos relacionamentos. Recentemente, minha filha disse que sentia saudades e que, se pudesse, não teria saído de casa tão cedo. Eu respondi que, se soubesse que sentiria tanta falta dela, teria insistido para que ela ficasse mais tempo.
A família, por mais que enfrente desafios, é o lugar onde encontramos razão para existir. Em vez de desconstruí-la, somos chamados a restaurá-la, baseados nos princípios e valores de Deus. Esse processo começa com atitudes diárias, com gratidão e com a decisão de obedecer a Deus e de ser exemplo para os outros.

O Rev. Dr. Robinson Grangeiro Monteiro é o Chanceler do Mackenzie