
Em uma época marcada por instabilidade doutrinária, identidades religiosas fluidas e uma espiritualidade frequentemente moldada mais pelo sentimento do que pela verdade, torna-se não apenas oportuno, mas pastoralmente necessário, refletir sobre as razões de nossa fé. Não se trata de exaltar uma denominação, mas de testemunhar uma convicção amadurecida à luz das Escrituras, da história da Igreja e da experiência pastoral. À semelhança do apóstolo João, que escreveu “para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus” (Jo 20.31), afirmo que sou presbiteriano não por herança cultural ou conveniência institucional, mas por convicção bíblica, confessional e missionária.
O presbiterianismo é fruto do movimento reformador do século XVI, que não buscou romper com a fé cristã histórica, mas reformar a Igreja segundo a Palavra de Deus (ecclesia reformata, semper reformanda secundum Verbum Dei). A Reforma foi, essencialmente, um retorno às fontes, à centralidade do evangelho da graça e à supremacia das Escrituras (Rm 1. 16–17). Nesse contexto, a tradição reformada, especialmente sob a liderança de João Calvino, ofereceu à Igreja uma teologia profundamente bíblica e uma eclesiologia pastoralmente sábia.
À luz dessa herança, apresento, de forma simples e reverente, algumas razões pelas quais sou presbiteriano.
A supremacia graciosa das Escrituras
Sou presbiteriano porque creio que Deus fala de maneira clara, suficiente e autoritativa por meio das Escrituras Sagradas (2Tm 3. 16–17). A Bíblia não é apenas um registro religioso do passado, mas a Palavra viva de Deus, que instrui, corrige, consola e conduz o seu povo (Sl 19. 7–11). Por isso, o presbiterianismo confessa o princípio da Sola Scriptura, entendendo que toda doutrina, toda prática e toda forma de culto devem estar submetidas ao testemunho bíblico (Is 8.20), concedendo ao povo de Deus um fundamento seguro e inabalável (Mt 7. 24–25). Ao submeter tradição, razão e experiência ao senhorio da Palavra, o presbiterianismo preserva a liberdade da consciência cristã e promove uma fé amadurecida, enraizada na verdade (Jo 8. 31–32).
A beleza doutrinária da fé reformada
Sou presbiteriano porque encontro na teologia reformada uma exposição reverente, coerente e pastoral do evangelho. Essa teologia afirma, com humildade e reverência, a soberania absoluta de Deus sobre todas as coisas (Sl 115.3) e, de modo especial, sobre a obra da salvação (Ef 1. 3–11). Ela nos lembra que a salvação não nasce da vontade humana, mas da misericórdia divina (Rm 9.16).
A Escritura ensina que o ser humano, ferido pelo pecado, não pode restaurar-se a si mesmo (Ef 2. 1–3). Contudo, Deus, rico em misericórdia, nos deu vida juntamente com Cristo (Ef 2. 4–5). A salvação é, portanto, pela graça, mediante a fé, para a glória de Deus (Ef 2. 8–9). Longe de produzir arrogância espiritual, tal doutrina gera humildade, gratidão e segurança pastoral no coração do crente (1Co 1. 29–31).
Essa fé é confessada de modo público e responsável. As confissões reformadas, especialmente a Confissão de Fé de Westminster, não substituem a Escritura, mas reforçam a compreensão de seus ensinos centrais (2Tm 1.13). Elas oferecem à Igreja estabilidade doutrinária e cuidado pastoral, protegendo o rebanho dos ventos de doutrina (Ef 4. 14–15).
Uma fé naturalmente missionária
Sou presbiteriano porque a fé reformada é, em sua essência, missionária. A soberania de Deus não nos afasta da missão; antes, nos envia com confiança e esperança (Mt 28. 18–20). Sabemos que a eficácia da missão não repousa na força humana, mas no poder de Deus que chama os seus (At 18. 9–10).
No contexto brasileiro, a vocação missionária manifestou-se de modo inequívoco a partir de 1859, com a chegada de Ashbel Green Simonton, cuja atuação inaugurou institucionalmente o presbiterianismo no país. Seu ministério caracterizou-se pela centralidade da pregação expositiva das Escrituras, pela formação sistemática de lideranças, pela organização eclesiástica segundo o modelo reformado e por um consistente compromisso com a educação. Desde seus primórdios, o presbiterianismo brasileiro demonstrou clara compreensão de que o evangelho possui alcance integral, não se restringindo à esfera individual da fé, mas promovendo a renovação da mente e o impacto ético e cultural da cosmovisão cristã no tecido social (Rm 12.1–2).
Considerações finais
Sou presbiteriano porque encontro nessa tradição um cristianismo profundamente bíblico, teologicamente sólido e pastoralmente cuidadoso. Sou presbiteriano porque ela me conduz à reverência, à humildade e à esperança, apontando sempre para Cristo, o Autor e Consumador da fé (Hb 12.2).
Em um tempo de incertezas, o presbiterianismo permanece como um convite à fidelidade serena e à confiança na graça soberana de Deus. E, com a Igreja de todas as eras, confessamos: “Porque dele, por meio dele e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém.” (Romanos 11.36)
Isaac Marra Nunes Marques,presbítero na IP do Encontro Vinho Novo, em Brasília, DF, é Secretário-Executivo do Presbitério Metropolitano de Brasília (PRMB). Servindo à igreja com dedicação pastoral e administrativa, tem se envolvido no fortalecimento da vida comunitária, na formação de lideranças e na promoção de ações que integrem fé, serviço e cuidado cristão.