“A verdade de Deus é o fundamento de toda fé e de toda vida piedosa”
(Institutas, I.7.1).
João Calvino nasceu em 10 de julho de 1509, na cidade de Noyon, região da Picardia, norte da França. Batizado como Jehan Cauvin, teve seu nome posteriormente latinizado para Ioannes Calvinus, originando a forma “Calvino” pela qual o conhecemos.
Parabéns, Calvino, por seus 516 anos. Seu pensamento permanece preservado, resistindo a violentos ataques, especialmente devido à sua preocupação com o certo e o errado — com a verdade. Daí sua advertência a Sadoleto: “A paz não deve ser comprada ao preço da verdade” (Carta a Sadoleto, 1539). A Igreja só pode existir sobre o fundamento da verdade revelada.
A verdade e o desafio do relativismo contemporâneo
Há, portanto, uma verdade. Contudo, a ideia de que ela é relativa germinou em contextos culturais influenciados pelo relativismo pós-moderno e ainda persiste. Nas ciências humanas e nas artes, passou-se a defender que a verdade está condicionada à experiência individual, ao contexto social ou à perspectiva cultural de cada um. Pelo menos, essa é a “verdade” ali anunciada.
Conquanto contemporânea, essa perspectiva relativista tem recebido severas críticas, principalmente em ambientes acadêmicos filosóficos e teológicos, por desestimular o diálogo e o debate. Afinal, se toda “verdade” é meramente pessoal, torna-se impossível afirmar que algo é realmente verdadeiro ou falso, justo ou injusto, bom ou mau. Eis uma falácia retórica contraditória que paralisa qualquer busca comum por sentido, justiça ou salvação, sitiando o próprio progresso e desenvolvimento humano.
Em A Intolerância da Tolerância (Cultura Cristã), Donald Carson argumenta que a evangelização cristã deve ser compreendida à luz da verdade — uma verdade objetiva, inegociável e essencial à própria definição de fé religiosa autêntica. Contrastando com o relativismo cultural mencionado, que vê a religião como expressão subjetiva e pessoal, o cristianismo insiste que a boa notícia de que é portador (o que Deus fez em Jesus Cristo) é verdade autêntica, com implicações universais. Por isso, crê também que evangelizar não constitui ato de intolerância ou imposição, mas consequência natural da convicção de que essa mensagem é real e salvadora. Ignorar tal responsabilidade seria irresponsável.
Carson confronta a crítica comum de que somos proselitistas e intolerantes. Tentam nos convencer disso, o que seria risível se não fosse, na verdade e na prática, além de contraditório, extremamente grave. Agir com moralidade e honestidade intelectual exige permitir que diferentes posições sejam apresentadas com respeito, inteligência e bons argumentos, sem recorrer ao rótulo pejorativo de ‘proselitismo intolerante.
Carson também reflete sobre os limites do diálogo inter-religioso. Para evitar conflitos, permaneceremos apenas no campo do que é comum às religiões? O resultado será um consenso superficial de meias-verdades. Um diálogo mais profundo e autêntico ocorrerá quando pessoas convictas de suas crenças se engajarem com respeito mútuo, sem receio de afirmar que outros estão equivocados. A evangelização prossegue.
Evangelização reformada: verdade, cruz e missão
Como cristãos reformados, reconhecemos que a verdade é inseparável da cruz. Jesus é a verdade e se entregou em amor para salvar seu povo. Isso demonstra que a afirmação da verdade, embora firme, deve ser marcada pela humildade e pelo sacrifício. A verdade não é arrogante. Como Carson expressa, o cristianismo defende não apenas uma verdade absoluta, mas uma verdade crucificada.
Por essa razão, a teologia reformada possui relação central, essencial e inegociável com a verdade. Desde suas origens no século 16, a tradição reformada entende que a fé cristã deve estar firmemente ancorada na verdade revelada por Deus, especialmente conforme registrada nas Escrituras. Essa relação manifesta-se em várias dimensões:
Deus é a fonte absoluta de toda verdade. Ele não apenas diz a verdade, mas é a própria verdade (Jo 14.6). Tudo que é verdadeiramente verdadeiro está em conformidade com seu caráter e vontade.
Como consequência necessária dessa crença, a teologia reformada afirma a suficiência, autoridade e inerrância da Bíblia como Palavra de Deus. Ela é a “regra infalível de fé e prática”, repositório da verdade salvadora a nós revelada. Como sustentou Calvino: “A Escritura é a escola do Espírito Santo, onde Deus nos fala com verdade infalível” (Comentário sobre 2Timóteo 3.16).
Também decorrente dessa convicção, a tradição reformada valoriza os Símbolos de Fé de Westminster justamente para preservar e transmitir com clareza a verdade bíblica. O confessionalismo não implica substituir a Bíblia, mas confessar com precisão aquilo que ela ensina verdadeiramente. Só ela é inerrante.
Somos intolerantes? É verdade que ocorrem equívocos lamentáveis, porém a teologia reformada enfatiza que a verdade não é apenas conteúdo a ser defendido, mas mensagem a ser vivida e anunciada com humildade. Evangelização, pregação, discipulado — tudo deve refletir a convicção de que estamos lidando com a verdade de Deus, que é libertadora (Jo 8.32).
A verdade de Deus possui dimensão doutrinária, viva, prática e espiritual. O evangelho que anunciamos (e ai de nós se não o fizermos!) não é relativizável nem opcional, mas constitui a base da fé, da salvação e da vida diante de Deus.
Vivemos para glorificá-lo, anunciando sua salvação em Jesus.
