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Satanás: é culpa do diabo?

Quando cremos em Deus e na sua Palavra, também somos levados a crer que Satanás é real. Como o restante dos anjos caídos, seu líder, Satanás, aparece claramente apenas no Novo Testamento. Seu nome hebraico significa “adversário” (oponente de Deus e do seu povo) com o sentido de um acusador legal no tribunal celestial, e é nessa condição que o Antigo Testamento o apresenta (1Cr 21.1; Jó 1—2; Zc 3.1-2). Convém observar, porém, que Satanás não cumpre um papel legítimo no tribunal celestial — ele é um intruso que faz acusações falsas. Em Jó, Satanás entra no tribunal celestial para “apresentar-se” (Jó 2.1; cf. 1.6), e não para servir; em Zc 3.2, o Senhor repreende Satanás por suas acusações falsas; em 1Cr 21.1, Satanás se opõe ao povo escolhido de Deus e incita o seu rei a pecar.

O Novo Testamento usa títulos reveladores para Satanás: diabo (diabolos) significa “alguém que faz acusações falsas” ou “adversário” (isto é, do povo de Deus; Ap 12.9-10); Apoliom (Ap 9.11) significa “destruidor”; tentador (Mt 4.3; 1Ts 3.5) e maligno (1Jo 5.18-19) são designações óbvias; e “príncipe deste mundo” e “deus deste século” mostram Satanás presidindo sobre os estilos de vida pecaminosos da humanidade (Jo 12.31; 14.30; 16.11 — “príncipe deste / do mundo”; 2Co 4.4 — “deus deste século”; cf. Ef 2.2 — “príncipe da potestade do ar”). Jesus afirmou que Satanás sempre foi um assassino e que ele é o pai da mentira — Satanás foi o primeiro mentiroso e, desde então é o fomentador de toda falsidade e engano no mundo (Jo 8.44). Por fim, ele é identificado como a serpente que enganou Eva no Éden (Ap 12.9; 20.2). É descrito como um ser repleto de malícia, fúria e crueldade inimagináveis dirigidas contra Deus, contra a verdade de Deus e contra aqueles aos quais Deus estendeu o seu amor salvador.

A descrição detalhada da rebelião de Satanás no céu e sua queda conhecida pela maioria dos cristãos de hoje é resultante mais do imaginário literário do que das Escrituras. Paulo indica que Satanás caiu em decorrência do seu orgulho (1Tm 3.6), mas não desenvolve essa ideia. A “estrela da alva”, expressão por vezes traduzida como “Lúcifer” (cf. 2Pe 1.19) em Is 14.12, é identificada explicitamente com “o rei da Babilônia” (Is 14.4, veja a sua nota; cf. a descrição semelhante do rei de Tiro em Ez 28). Embora seja concebível que Is 14.12 considere Satanás o “príncipe” do império babilônico (veja as notas sobre Dn 10.13,20) ou se refira a uma tradição mais antiga sobre a queda primeva de Satanás, estas são apenas ideias especulativas que não são corroboradas pela Bíblia nem confirmadas por fontes externas. Em última análise, a Palavra de Deus revela poucos detalhes sobre as origens de Satanás.

Apesar de não sabermos muito sobre Satanás, as Escrituras nos dizem que devemos levar a sua oposição a sério, ficar atentos para suas estratégias e lembrar que estamos lutando contra ele (2Co 2.11; Ef 6.16). Sabemos que Satanás é dissimulado e astuto, podendo transformar-se num anjo de luz e fazer o mal parecer o bem (2Co 11.14). Sua ferocidade destruidora pode ser vista nos textos que o descrevem como um leão que ruge (1Pe 5.8) e como um grande dragão (Ap 12.9). Assim como se mostrou inimigo declarado de Cristo (Mt 4.1-11; 16.23; Lc 4.13; Jo 14.30; cf. Lc 22.3,53), continua sendo adversário do cristão, sempre procurando fraquezas, distorcendo virtudes e solapando a fé, a esperança e o caráter (Lc 22.31,32; 2Co 2.11; 11.3-15; Ef 6.16). Ele deve ser levado a sério, pois a sua malícia e astúcia o tornam um inimigo terrível.

No entanto, os cristãos não precisam ter medo de Satanás. Ainda que, por ora, seja uma criatura superior aos seres humanos, ele não é divino; possui grande conhecimento e poder, mas não é onisciente, onipotente, nem onipresente. Pode ser vencido — aliás, Cristo já o derrotou definitivamente. Ao iniciar o reino de Deus no seu ministério terreno, Jesus confrontou Satanás diretamente. Não apenas resistiu às tentações de Satanás (Mt 4.1-11; Lc 4.1-13), como também deu aos seus discípulos o poder de expulsar demônios (Lc 9.1; veja o artigo teológico “Demônios”, em 1Co 10), e afirmou ter visto “Satanás caindo do céu como um relâmpago” (Lc 10.18). Com a vida, morte e ressurreição de Jesus Satanás, o “valente”, foi amarrado (Mt 12.25-29) e se tornou relativamente impotente (Hb 2.14). Em outros tempos, reinou sobre as nações gentias (Mt 4.8-9), mas não tem mais poder de “[enganar] as nações” (Ap 20.1-3). Em decorrência disso, à medida que o reino de Deus prossegue na história da igreja, o evangelho avança pelo mundo com grande sucesso. Os cristãos também podem triunfar sobre Satanás em sua vida pessoal se resistirem a ele com os recursos que Cristo oferece (Ef 6.10-18; Tg 4.7; 1Pe 5.8-10): “maior é aquele que está em vós do que aquele que está no mundo” (1Jo 4.4). No entanto, quando Jesus voltar, trará consigo a consumação do reino e, nessa ocasião, Satanás e o seu exército serão lançados para sempre no lago de fogo (Ap 20.10). Sua condenação é certa.

Bíblia de Estudo de Genebra

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